Ancoradouro

Religião e Ciência tem Como Base, a Fé, Segundo Cientista

A relação entre Fé e Razão no Magistério da Igreja Católica não são antitéticas, uma complementa a outra, para comparar, é semelhante à imagem de duas asas, como escreveu o Papa João Paulo II na Carta Encíclica Fé e Razão.

 Contudo, entre os cientistas essa concepção não agrada, por isso insistem em afirmar a superioridade da Ciência sobre a Fé, tendo, esta última, como uma realidade primitiva superada pelo homem evoluído.

No entanto, a ciência não consegue dar uma resposta fechada quando as questões são a origem do universo e sua manutenção, por exemplo.

Em 2007 o renomado físico teórico e cosmólogo inglês, do Arizona State University Paul Davies, escreveu no jornal Americano The New York Time, artigo que mexeu no brio dos mais céticos, materialistas e naturalistas pesquisadores.

Davies compara em seu elaborado artigo que a base do método científico é a fé.

Por estas e outras concepções que surgem na comunidade científica vemos que não está distante a necessária reconciliação entre Fé e Razão, Fé e Ciência.

O artigo de Paul Davies:

paul davies A ciência, como sempre escutamos falar, é a mais confiável forma de conhecimento sobre o mundo porque se baseia em hipóteses passíveis de comprovação. A religião, por outro lado, baseia-se na fé. A figura de São Tomé ilustra muito bem a diferença. Na ciência, um ceticismo saudável é requisito profissional; na religião, crer sem ter provas é considerado virtude.

 O problema dessa nítida separação entre “domínios do conhecimento que não se justapõem”, como Stephen Jay Gould descreveu a ciência e a religião, é que a ciência possui o seu próprio sistema de crenças baseado na fé. Toda a ciência funciona a partir da suposição de que a natureza é organizada de uma maneira racional e inteligível. Você jamais poderia ser um cientista se achasse que o universo é uma confusão de fragmentos sem sentido onde se acha de tudo um pouco, frações justapostas ao acaso. Quando físicos sondam um nível mais profundo da estrutura subatômica ou astrônomos ampliam o alcance de seus instrumentos, eles esperam encontrar uma nova e coesa ordem matemática. E, até agora, essa fé foi convincente.

 A mais refinada expressão de inteligibilidade racional do cosmos se encontra nas leis da física, as regras fundamentaisUNIVERSO segundo as quais a natureza funciona. As leis da gravidade e do eletromagnetismo, as leis que regem o universo dentro do átomo, as leis da mecânica, todas são expressas por detalhadas relações matemáticas. Mas de onde vêm essas leis? E por que são descritas desta forma?

 No meu tempo de estudante, as leis da física eram consideradas como algo completamente intocável. O trabalho do cientista, como nos diziam, era descobrir as leis e aplicá-las, não questionar sua origem. As leis eram tratadas como “pressupostos”, impressas no Universo como uma marca do criador no momento do nascimento cósmico, e imutáveis para todo o sempre. Portanto, para ser um cientista, era preciso ter fé na idéia de que o universo é regido por leis matemáticas, fidedignas, imutáveis, absolutas e universais, de origem não especificada. Era preciso acreditar que essas leis não falhariam que não acordaríamos um belo dia e descobriremos o calor em fluxo do frio para o quente, ou a velocidade da luz mudando de hora em hora.

 Ao longo dos anos, perguntei diversas vezes a meus colegas físicos por que as leis da física são o que são. As respostas variavam de “essa não é uma pergunta científica” até “ninguém sabe”. A resposta favorita é: “não há motivo para elas serem o que são. Elas simplesmente são”. A idéia de que as leis existem irracionalmente é profundamente anti-racional. Afinal de contas, a própria essência da explicação científica de alguns fenômenos é que o mundo é organizado de maneira lógica e existem motivos para as coisas serem como são. Se alguém seguir as pistas desses motivos em todo o percurso até o fundamento da realidade, as leis da física, somente para descobrir que a razão naquele ponto nos abandonou isso seria zombar da ciência.

 Será possível que a poderosa estrutura da ordem física que percebemos no mundo que nos diz respeito seja, em última análise, alicerçada em um absurdo irracional? Se sim, então a natureza é um embuste diabolicamente sábio: absurdo e ausência de sentido de alguma forma disfarçando uma engenhosa ordem e racionalidade.

 Embora os cientistas tenham durante muito tempo uma inclinação a jogar para baixo do tapete as dúvidas referentes à origem das leis da física, vemos agora uma mudança considerável de postura. Isso se explica, em parte, pela crescente aceitação de que o surgimento da vida no Universo, e logo, a existência de observadores como nós, depende sensivelmente da forma das leis. Se as leis da física fossem apenas um saco com um monte de regras velhas e esfarrapadas, é quase certo que a vida não existiria.

 Um segundo motivo pelo qual as leis da física agora começam a entrar no escopo do questionamento científico é a compreensão de que aquilo há tanto tempo considerado como leis absolutas e universais poderia não ser sequer verdadeiramente fundamental, mas talvez algo mais parecido com regimentos locais. Elas poderiam variar de um lugar para outro em uma escala mega-cósmica. Uma visão de cima, panorâmica, poderia revelar uma enorme colcha de retalhos de Universos, cada um com seu próprio conjunto característico de regimentos. Nesse “multiverso”, a vida surgiria apenas nos locais com leis propícias à vida, então não é de se surpreender que nos encontremos em um universo de conto-de-fadas, ideal à vida. Selecionamos isso por conta da nossa própria existência.

 atomo4A teoria do multiverso está se tornando cada vez mais popular, mas ela não explica exatamente as leis da física. Na verdade, esquiva-se da questão como um todo. Deve haver um mecanismo físico para criar todos esses universos e conferi-los leis. Esse processo exigiria suas próprias leis ou meta-leis. De onde elas vêm? O problema simplesmente foi transferido de um nível superior de leis do universo para o das meta-leis do multiverso.

 É óbvio, portanto, que religião e ciência fundamentam-se na fé, a saber, na crença da existência de algo externo ao Universo, como um Deus ou um conjunto de leis inexplicados, talvez até uma enorme formação de Universos invisíveis também. Por esse motivo, tanto a religião monoteísta quanto a ciência ortodoxa não são capazes de apresentar uma explicação completa da existência física.

 Esse fracasso compartilhado não é novidade, já que, antes de qualquer coisa, a própria idéia de lei da física é teológica, fato que faz muitos cientistas torcer o nariz. Isaac Newton teve primeiramente a idéia de leis absolutas, universais, perfeitas e imutáveis a partir da doutrina cristã de que Deus criou o mundo e o organizou de forma racional. Os cristãos imaginam Deus como o sustentáculo da ordem natural de além do universo, enquanto os físicos pensam em suas leis como ocupantes de um reino abstrato transcendente de relações matemáticas perfeitas.

 E assim como os cristãos afirmam que a existência do mundo depende totalmente de Deus, embora o oposto não seja verdade, da mesma forma os físicos crêem em semelhante assimetria: o Universo é regido por leis eternas (ou meta-leis), mas as leis são completamente resistentes e não afetadas pelo que acontece no Universo.

 Para mim fica a impressão de que não existe esperança para um dia explicarmos por que o universo físico é como é enquanto estivermos presos a leis imutáveis ou meta-leis que existem irracionalmente ou são impostas pela providência divina. A alternativa é considerar as leis da física e o Universo por elas regido como parte e componente de um sistema unitário, e serem incorporados juntos dentro de um esquema explanatório comum.

 Em outras palavras, as leis devem ter uma explicação de dentro do Universo e não devem apelar a um agente externo. Os detalhes dessa explicação são assuntos para futuras pesquisas. Mas enquanto a ciência não apresentar uma teoria das leis do Universo que seja passível de comprovação, sua alegação de que ela não se baseia em fé permanece claramente falsa.

E-MAIS 

• Paul Davies é diretor do Beyond, centro de pesquisa da Arizona State University, e autor do livro “Cosmic Jackpot: Why Our Universe Is Just Right for Life”.

• (24 de Novembro de 2007 http://www.nytimes.com/2007/11/24/opinion/24davies.html?_r=2&hp&oref=slogin&oref=slogin )

Recomendado para você