Ancoradouro

Teilhard de Chardin e as Duas Guerras Mundiais

Anteriormente publiquei um material sobre Teilhard de Chardin (vide no pôst relacionado), um pensador jesuita cujo pensamento torna-se conhecido no meio acadêmico, não só teológico, mas de outras especialidades como paleontologia, arqueologia e outros. Esse próximo artigo trata da participação de Chardin nas duas Conflagrações Mundiais.

P. Teilhard participou das duas guerras mundiais. Na primeira, três anos após sua ordenação, serve como padioleiro, no oitavo regimento de atiradores marroquinos, a recolher mortos e feridos em campo de batalha. Terminada a guerra mereceu ‘duas citações, uma medalha militar e a ordem da legião de Honra.’[1]Na segunda Guerra Mundial foi confinado em exílio em Pequim.

Foi nos anos da primeira Guerra Mundial que surgiram os primeiros escritos, sendo o primaz deles Vida Cósmica (1916).  Também neste período suas convicções foram reforçadas e a intuição de que existia um sentido maior do que aquilo que simplesmente se apresentava o impulsionava a prosseguir. Foi uma experiência marcante e necessária para o seu pensamento, como escreveu:

Afirmo, por minha parte, que sem a guerra haveria um mundo de sentimentos que eu jamais teria conhecido nem suspeitado. Ninguém afora aqueles que ali estiveram, terá idéia da lembrança carregada de deslumbramento que um pode guardar das planuras de Ypré em abril de 1915, quando o ar de Flandres rescendia a cloro e as granadas decepavam os choupos ao longo do ypelè.[2]

P. Teilhard não se deixou abater nestes anos difíceis, nem mergulhou num pessimismo, que por ocasião se generalizava. Acreditava que daquela cruel purificação pela qual passavam os homens, surgia uma humanidade mais bela e potente.

Suas convicções enraizadas no solo sangrento da guerra o fizeram despontar para uma nova realidade. Cada vez mais o Jesuíta de Auvergne acreditava que o mundo estava preso a um processo evolutivo e caminhava irremediavelmente para um ponto de convergência.

O mundo para ele era um vir-a-ser orgânico que se centralizava no homem. Depois da formação da pessoa humana não entenderíamos este processo se ele não desembocasse no centro da convergência e da perfeição, o Omega.

 Todos os temas fundamentais Teilhardiano tais como processo, humanidade, personalização, convergência, foram cunhados nos tempos de guerra. Daí nasceu também a necessidade de escrever e comunicar estas intuições interiores. Queria contribuir com a humanidade deixando algo mais durável do que ele.

 Não obstante isso sabia das dificuldades existentes devido a reação que gerava a novidade deste pensamento para aqueles que estavam acomodados numa elaboração filosófica antiga e perpetrada num sistema estático.

P. Teilhard manteve-se fiel às suas convicções e exarou tudo o que estava em sua mente. Seu interesse por aquilo que era humano fé-lo, mesmo diante das adversidades, prosseguir e deixar sua contribuição.

O que eu me solicita profundamente na vida é poder colaborar numa obra, numa realidade, mais durável do que eu. É nesse espírito e nesta perspectiva que procuro aperfeiçoar-me e dominar um pouco mais as coisas.[3]

 


[1] ARCHANJO, Prof.José Luiz, Ph.D. O Pensamento Vivo de Teilhard de Chardin,

[2] La Nostalgie du Front, texto citado por Grenet, P., Teilhard de Chardin un évolutionniste Chrétien, Seghers, Paris, 1961, p. 165, apud MARTINAZZO, Eusébio. P.43

[3] Ibid. , p. 45.

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