Ancoradouro

19 de março – um conto de São José

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Ícone de são José

No alpendre da casa, uma roda de camaradas discute sobre o que acabaram  de ouvir falar o candidato político no programa eleitoral exibido em uma – para a época, moderníssima –  Telefunken.  A conversa era cheia de concordâncias e discordâncias que parecia não chegar a um consenso.

Um homem magro e de tez queimada pelo sol, cigarro peduro à boca falava dos compadres que moravam pelas bandas do alto verde.  Tinham perdido a criação devido à seca. “A plantação havia  queimado até o pé”, lamentou, meneando a cabeça e alteando a voz prosseguiu exaltando o plano de emergência do governo, “isso é que ainda livra os pobre da morte”, disse.

“Mais tem pobre que hoje em dia num quer mais trabaiar, quer só esperar das autoridade o de comer”, disse outro homem acocorado no peitoril. Apontando o dedo em riste para a audiência lamentou: “tenho dó  desse home”.

“Ainda bem que tem carnaúba por essas bandas pra mode os magricelo dos bezerros comer, porque ajuda dos coroné nunca chegou por aqui”, orgulhava-se o dono da casa que, na redondeza, era conhecido como pobre-rico.

“A mulher da televisão falou que tem canto no Ceará que nem água tem para se beber. E olhe que nem esperança de chuva os home da Funceme estão dando”, informava um homem caboclo que continuou a fala cheio de esperança ao lembrar que se aproximava o 19 de março.

No meio da animada conversa, a dona da casa trouxe um bule de café esfumaçante e um pacote de bolachas doces deitado em um prato de plástico azul, daqueles de merenda escolar. Como do nada, apareceram,saltitantes, as crianças que levavam mancheias de bolachas à boca.

A prosa continuou e o assunto mudou. Agora versavam sobre o cemitério para anjinhos que um vereador da região empreendeu construir perto da casa onde estavam.

“Isso é que é falta do que fazer”, sentenciou  o mais velho da roda, “por que não fez isso ao menos longe da estrada dos carro grande?”, ainda questionou o idoso.

Findando a prosa desfez-se a turma que enveredando para suas casas sumiram na noite.

O pequeno que antes escutava ao lado do pai, o dono da casa, a conversa dos homens, encolhia-se ao fundo da rede escutando os respingos de chuva que a muito não caiam no velho telhado. Em seu coração se afirmava a certeza  que o dia de são José se aproximava e com ele a chuva e a esperança que tudo poderia ser diferente naquele lugar.

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