Ancoradouro

A orientação da Igreja para a Teologia da Libertação

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Ouvi da boca de um bispo que recebeu  por herança uma diocese marcada pela  teologia da libertação. “Meu filho, se eu tivesse recebido a igreja com os pobres estaria satisfeito”.  Lamentava o religioso que recebia um legado de muita luta social e pouquíssima espiritualidade plantada. Resultado: escassez de vocações, indiferença da população à religião e uma igreja totalmente descaracterizada.

Já morei em uma paróquia também com forte presença da chamada TL no início da década de 90. Um despautério só. Opção preferencial pelo pobres, na ótica desta corrente, se assemelha à luta de classes do Marx, aquele mesmo que disseminava que a religião era o ópio do povo.

Os abusos foram tão grandes que a Congregação para a Doutrina da Fé precisou intervir. Em 1984 através deste Dicastério a Igreja lançou uma instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação. O texto é claro e traz claro ensinamento sobre os erros desta teoria que se infiltrou na Igreja da América Latina e do Caribe.

É bom que se reforce o propósito do texto, explicado ainda no primeiro parágrafo.”Esta advertência não deve, de modo algum, ser interpretada como uma desaprovação de todos aqueles que querem responder generosamente e com autêntico espírito evangélico à  ‘opção preferencial pelos pobres’.

A Teologia da Libertação não acabou, reinventa-se sobretudo através de uma vasta literatura que circula por ambientes formativos. Tenha-se em conta que ” os graves desvios ideológicos que ela  (TL) aponta levam inevitavelmente a trair a causa dos pobres”, destaca o documento. E mais: “existem numerosos movimentos políticos e sociais que se apresentam como porta-vozes autênticos da aspiração dos pobres e como habilitados, mesmo com o recurso a meios violentos, a realizar as transformações radicais que poriam fim à opressão e à miséria do povo

partir desta abordagem podem-se distinguir diversas maneiras, frequentemente inconciliáveis, de conceber a significação cristã da pobreza e o tipo de compromisso pela justiça que ela exige. Como todo movimento de ideias, as « teologias da libertação » englobam posições teológicas diversificadas; suas fronteiras doutrinais são mal definidas”.

Nesta teoria ganha destaque o reino dos homens ao Reino de Deus. O centro é a vida, num quase culto ao biologismo. Quem nunca viu vastas referências ao Deus da vida. Onde o centro da existência humana é apresentado tão somente na perspectiva terrena, materialista.

A libertação primordial do homem é do pecado. E isso quem ensina é a Sagrada Tradição da Igreja, o que é relembrado pela orientação do Vaticano no número 12.  “A Revelação do Novo Testamento nos ensina que o pecado é o mal mais profundo, que atinge o homem no cerne da sua personalidade. A primeira libertação, ponto de referência para as demais, é a do pecado”.

Na espiritualidade desta Teologia o único mal é o “pecado social”, por isso que nas orações a motivação se restringe a este aspecto. A Igreja não reconhece a raiz dos males do homem nesta premissa, apenas  uma consequência do pecado de cada pessoa.  Tampouco o mal pode ser restrito às estruturas econômicas.

O documento resgata algo de suma importância: “Lembremos que a opção preferencial, definida em Puebla, é dupla: pelos pobres e pelos jovens”. E o que observamos através da prática da TL? Um afastamento massivo dos jovens da Igreja. Houveram Dioceses que retiraram seus seminaristas das faculdades, para, em nome de um trabalho com o pobres, irem para o campo.

Desafetos à liturgia não foram poucos como a liberação de manuseio da eucaristia a qualquer indivíduo, troca da celebração eucarística pela celebração da palavra e muitas vezes os  textos litúrgicos eram substituídos por leituras profanas em plena celebração.

O resultado é o que vimos. Deserção em massa de milhares de católicos. Embora estas expressões estivessem presente nas bases não conseguiram transmitir a força da palavra da Deus, aquela capaz de libertar o homem integralmente. O que favoreceu ao crescimento das denominações evangélicas que se expandiram nos territórios de pobreza e subúrbios do país, igualmente povoado por adeptos  da TL. Enquanto a Igreja oferecia apenas o pão material os “crentes” ofertaram o pão espiritual, embora esta oferta carecesse de uma fiel interpretação. A consequência desse movimento é o crescimento do ateísmo que já começamos a vislumbrar mas isso  para outro artigo.

Voltemos ao texto orientativo: “Lembremos que o ateísmo e a negação da pessoa humana,, de sua liberdade e de seus direitos, encontram-se no centro da concepção marxista. Esta contém de fato erros que ameaçam diretamente as verdades de fé sobre o destino eterno das pessoas. Ainda mais: querer integrar na teologia uma ‘análise’ cujos critérios de interpretação dependam desta concepção ateia, significa embrenhar-se em desastrosas contradições. O desconhecimento da natureza espiritual da pessoa, aliás, leva a subordiná-la totalmente à coletividade e deste modo a negar os princípios de uma vida social e política em conformidade com a dignidade humana”.

Para os seguidores da Teologia da Libertação a Celebração Eucarística é mera celebração do povo em luta, o sacramento da Confissão foi meio encontrado pela Igreja medieval para manter sob tutela os fieis, o padre não precisa ser bem este presbítero que temos hoje, poderia ser um “ancião”, alguém da comunidade, inclusive, uma mulher. Chega-se ao extremo de configurar Deus como história e a fé como fidelidade à história. “Por conseguinte, a fé, a esperança e a caridade recebem um novo conteúdo: são  ‘fidelidade à história’, ‘confiança no futuro’, ‘opção pelos pobres’. É o mesmo que dizer que são negadas em sua realidade teologal.

Mesmo a Ressurreição não interpretada como Milagre, mas somente numa perspectiva sociológica que ensina que Cristo está ressurreto apenas na memória dos seus seguidores e nos seus escritos. A dimensão sobrenatural da fé é suplantada.

A orientação da Igreja sobre a Teologia da Libertação é para preservá-la de um sério desvio doutrinário que pode ” pôr em xeque a estrutura sacramental e hierárquica da Igreja, tal como a quis o próprio Senhor”, finaliza o texto.

Espero  escrever mais sobre o assunto. Gostaria de ler seus comentários sobre o tema. 

 

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