Ancoradouro

Exclusivo] "Cristãos não são Egípcios de segunda categoria" diz frade naturalizado brasileiro que mora no Egito

Frei Patrício diante da Esfinge de Gizé. Foto: arquivo pessoal.

Frei Patrício diante da Esfinge de Gizé. Foto: arquivo pessoal.

Frei Patrício Sciadini é um frade da Ordem dos Carmelitas Descalços, italiano, nacionalizado brasileiro. Há três anos e meio reside no Cairo, Egito, no mosteiro de Santa Terezinha do Menino Jesus, em Shubr.  O religioso  tem uma relação  afetiva com Fortaleza. Por diversas vezes veio à capital cearense para participar de retiros e fóruns promovidos pela Comunidade Católica Shalom.

Nesta entrevista ao blog ANCORADOURO Abuna Batrik, como é conhecido no Egito, fala sobre o  atual cenário de conflito no país, das manifestações no Brasil e seu amor ao Shalom. Com a ascese típica dos carmelitas afirma que vir ao Brasil seria um presente divino, mas que “Deus dá quando Ele quer e não quando nós queremos”.

Blog ANCORADOURO:  Qual  o cenário atual do Egito no que diz respeito aos grupos religiosos, quem são os extremistas e as irmandades muçulmanas?
Frei Patrício: A situação atual do Egito podemos enxergá-la sob duas perspectivas: com o olho de quem vive no Egito e o outro, daqueles que estão fora do Egito. Todos os extremismos são errados.  No momento da queda do presidente [Mohamed Mursi] , a autoridade do exército, como bem colocou em evidência o patriarca dos Católicos Coptas, devia intervir para recolocar no país a paz e o equilíbrio econômico. Os olhos que veem o Egito do exterior nem sempre compreendem a realidade que o povo vive aqui: de medo, de perseguição. As vezes é necessário intervenções para que o extremismo político e religioso não provoquem situações piores.

Frei Patrício durante pregação no Fórum Carismático Shalom em 2011. Foto: arquivo Shalom.

Frei Patrício durante pregação no Fórum Carismático Shalom em 2011. Foto: arquivo Shalom.

Blog ANCORADOURO:  Qual é a orientação da Igreja quando há os conflitos?

Frei Patrício:  Nesse momento, a Igreja sempre fiel ao evangelho, convida a não reagir “a violência com a violência” mas a procurar os meios legais de proteção das pessoas, das igrejas e das propriedades da igreja. Os cristãos no Egito, de todas as denominações, como foi bem colocado várias vezes, não são egípcios de segunda categoria, mas são egípcios que tem todos os direitos e deveres que a constituição lhes outorga. Não pode existir discriminação por motivos religiosos.

Blog ANCORADOURO:   Nos últimos meses muitos brasileiros tem ido às ruas para manifestar sua insatisfação . Em termos de violência não se compara ao que acontece  no Egito mas, se observa um grupo minoritário que vandaliza, destrói e persegue a quem rotulam de conservadores e a própria imprensa. Que relação podemos estabelecer entre a realidade brasileira (querendo se espelhar em uma certa primavera árabe) e a do Egito?

FP: A pergunta é muito boa, mas é muito complexa para responder, precisaria escrever um livro. A insatisfação de todas as idades, seja dos jovens, dos adultos ou velhos, é coisa boa porque significa que não nos acomodamos em situações mumificadas. Buscamos a verdade e caminhos novos. As insatisfações devem provocar o diálogo respeitoso, adulto e maduro. O caminho da violência, venha de onde vier é sempre errado. O que se destrói não temos mais, precisa depois gastar dinheiro para reconstruir. Pessoas maduras e inteligentes não destroem, dialogam. O vandalismo é uma forma de infantilidade e de agressividade inconcebíveis. Os meios de comunicação sem dúvida influenciam todos os países do mundo. Não devemos imitar os métodos dos outros mas procurar os próprios caminhos.


Blog ANCORADOURO:    
Como a população no Egito  tem recebido as palavras do Papa Francisco sobre a situação de conflito?

Emmir Nogueira e Moysés Azevedo, fundadores do Shalom, rezando por Frei Patrício.

Emmir Nogueira e Moysés Azevedo, fundadores do Shalom, rezando por Frei Patrício.


FP: A palavra do Papa não tem a mesma ressonância que tem nos países católicos, porque somos uma minoria. É claro que os católicos dos vários ritos, em comunhão com Roma, recebem as palavras do Santo Padre com entusiasmo, com amor e se esforçam para colocá-las em prática. As outras religiões, principalmente os mulçumanos, não dão muita importância ` porque o veem com os olhos diferentes.

Blog ANCORADOURO:   
O senhor conhece algum cearense que esteja morando no Cairo?

FP: Não conheço nenhum cearense que more no Cairo, se você conhece algum, por favor, diga que eu moro no Cairo, na Basílica de Santa Teresinha em Shubra. Também não fico a procura de brasileiros que estão no Egito. Nunca fui muito bairrista, onde estou, todos são sempre meus irmãos. 
 
Blog ANCORADOURO:   
Quando o senhor pretende vir ao Brasil (Fortaleza) ?
FP: São 3 anos e meio que estou no Egito, não tenho previsão de quando vou ao Brasil e Fortaleza. São presentes que Deus dá quando Ele quer e não quando nós queremos. 

Blog ANCORADOURO:    
O senhor traz em seu escudo carmelita a palavra Shalom pirografada, numa alusão ao seu carinho e irmandade espiritual com a Comunidade que nasceu no Ceará. Qual é a sua relação com o Shalom e como o senhor ver este carisma na Igreja na atualidade?
FP: Uso em meu escudo a escrita Shalom em árabe.  A comunidade Shalom vive no meu coração porque nela tenho encontrado espaço para a espiritualidade carmelitana.  É uma comunidade missionária que vejo que está fazendo um ótimo trabalho em muitos lugares do mundo, principalmente no meio da juventude. Por isso me identifico com a comunidade Shalom e com sua espiritualidade. E tenho recebido da comunidade Shalom muito bem. Em Fortaleza ela tem uma atuação na igreja muito boa.  Os encontros que a comunidade realiza tem uma força evangelizadora muito importante.

Blog ANCORADOURO:   Como  os cristãos em países onde não há perseguição podem colaborar com o Cairo? Em termos de ajuda humanitária, o que mais se precisa?

FP: Existem associações  – que eu não conheço  – que, sem dúvida, ajudam no Egito para o desenvolvimento humano dos mais pobres. Nós temos aqui três obras: dois pequenos hospitais e uma creche.  A educação e a saúde são meios eficazes para criar um bom relacionamento com todos.

Recomendado para você