Artesanato da Mente

No fio da navalha

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Este blog se chama “Artesanato da mente” e ainda não falei como surgiu esse nome. Vou explicar. Eu tenho formação acadêmica na área das exatas (Física) e sou professor de Física e Matemática. Porém, sempre existiu em mim um lado questionador, poético, artístico, que durante muito tempo ficou adormecido. Eu despertei esse lado mais criativo a partir das dificuldades que tive na vida. Os meus sofrimentos me levaram a desenvolver o lado mais humano como nunca imaginei ser possível.

Amo Filosofia, Psicologia e Teologia. Todas elas são linhas de pensamento que nos levam a grandes reflexões, da mesma forma que amo as artes de todas as formas: música, poesia, pinturas, esculturas, artesanato, orquestras, óperas etc. etc.

Então pensei: “Como posso unir essas tendências?”. Depois de pensar bastante surgiu esse nome: “Artesanato da mente”, que achei a minha cara e bem elegante não acha?

 Mas por que estou falando isso? Meu objetivo é falar sobre outra coisa. Sobre nossos talentos mais enraizados e essenciais. Descobri meu talento para a escrita e sei que ele pode ajudar muitas pessoas e a mim próprio se me mantiver firme neste propósito e atento às inúmeras curvas e dificuldades que certamente surgem pelo caminho.

 No Brasil e no mundo inteiro existem pessoas com talentos incríveis que não são desenvolvidos por causa do sistema no qual estão inseridos e pelo estilo de vida que visa muito mais o lucro, a ostentação, o ter mais, o trabalhar mais, o produzir mais, em detrimento daquilo que preenche nossa vida e nossa alma de alegria. Para se adequar a essa realidade, muitos deixam de correr atrás dos seus sonhos e de realizar um trabalho muito mais motivador e realizador. Isso é triste, porém bem mais comum do que se pensa.

 Quero levar você a refletir sobre isso e pensar na sua própria vida. Você está trabalhando com aquilo que faz seu coração vibrar de emoção? Trabalha com algo que dá um sentimento de dever cumprido toda vez que chega em casa ao final do dia? Vai trabalhar com um brilho intenso no olhar, sem se queixar disso ou daquilo?

 Responda a esses e outros questionamentos que forem surgindo em sua mente com absoluta sinceridade e siga o caminho do seu coração. Garanto a você que o caminho do coração é aquele que pode nos dar um sentido pleno para a vida, mesmo que esse caminho não satisfaça o que os outros pensem a nosso respeito ou mesmo que ele não venha a dar o reconhecimento que a sociedade tanto tenta nos impor como fundamental, ou dar um retorno financeiro tão pomposo etc. Vale a pena pensar sobre tudo isso…

 E para continuar refletindo sobre esses temas, compartilho um texto inspirador do jornalista, escritor e radialista Flávio Siqueira.

 “Todos temos habilidades e todas as habilidades são igualmente belas e importantes. É como o corpo humano, a natureza, cada órgão, cada animal, cada árvore, cada um cumprindo seu papel.

Outro dia li em algum lugar que, se as abelhas fossem extintas (e elas estão desaparecendo aos poucos) sofreríamos um grande colapso, não haveria polinização, sem plantas, sem animais, incluindo os humanos. O problema é que não enxergamos mais a vida sob a perspectiva dos significados, mas através dos olhos reguladores do tal “mercado”. Dá dinheiro? É bom. Não dá? Vai trabalhar vagabundo! – É como a maioria age.

E o talento natural? E a habilidade para fazer coisas belas? E a possibilidade para estender o que é naquilo que faz, seja o que for, colocando-se no ofício, sendo útil no que sabe fazer? Os espaços diminuem, gente sensível vai trabalhar na fábrica, músicos excepcionais viram vendedores de seguro, poetas cumprem turno nos bancos, artistas advogam, escritores assumem gerência administrativa, talentos sufocados pela imposição de um estilo de vida cruel que enquadra as pessoas em “quanto” são capazes de produzir e ganhar.

O que fazer? Não tenho fórmulas mágicas. Sei como são as coisas e reconheço que haverá conflitos permanentes para quem resiste adequar-se. Na verdade, ou você se adéqua, coloca sua gravata, seu crachá, sua pastinha embaixo do braço e sai à luta, se entrega ao trabalho, faz o que puder para “chegar lá”, ou repensa a si mesmo, questiona-se se é isso que quer e arca com as consequências. De um jeito ou outro haverá consequências, portanto é uma escolha.

Dá para conciliar? Sempre dá. Mas a medida é de cada um, não há regras. Sou um dos que tenta, que às vezes cansa, que vive se equilibrando, caindo, levantando, repensando, ajustando, para conciliar necessidades com habilidades, vida profissional com vocação, pragmatismos e utopias. Escolhi ser o financiador do que faço, ainda que seja bastante difícil. É uma escolha.

Acho que precisamos manter isso em mente: Que tipo de vida escolho ter? O que sei fazer? O que quero fazer? E caminhar conforme decidiu. Não dá para pautar-se apenas pelas imposições do mercado e os apelos do consumo, assim como não dá para viver desconsiderando que nossa sociedade gira em torno do dinheiro, que é preciso sustentar-se, mesmo que a escolha seja por um estilo de vida mais simples.

Apenas não sufoque o que é. Mantenha um espaço de arejamento, deixe que uma fresta permaneça aberta, mesmo que seja mínima. Jamais sufoque suas habilidades. Pode ser que novas perspectivas sejam abertas, é possível que caminhos não imaginários hoje se desenrolem com naturalidade, quem sabe?

É preciso caminhar atento, fiel ao que é, consciente de até que ponto concessões serão necessárias, mas não permitindo jamais perder-se no meio da multidão de necessidades. É um fio de navalha, escolhas diárias que cabem a cada um de nós.”

Flávio Siqueira

Link: Vida profissional: Dá pra conciliar vocação com necessidade?

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

 

 

 

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