Artesanato da Mente

“Sinto vergonha, logo existo”

Ouvindo o quadro Academia CBN com o filósofo e professor Mario Sergio Cortella, fiquei refletindo bastante a respeito do que é considerado por muitos uma limitação ou mesmo uma característica das pessoas tímidas, que é a VERGONHA.

Ao contrário do que muitos pensam, ela tem um lado bastante positivo, desde que se analise o contexto. Caso queira ouvir seu comentário segue o link [aqui].

No comentário ele citou uma frase atribuída ao escritor russo Vladimir Soloviev que diz: “Sinto vergonha, logo existo”. Frase que se assemelha à famosa máxima de Descartes: “Penso, logo existo”.

É bem verdade que sentir vergonha é algo bastante humano e no cotidiano utilizamos muito a expressão “vergonha na cara” como forma de representar as atitudes decentes ou indecentes, honestas ou desonestas, virtuosas ou deletérias etc.

Normalmente falamos: “Fulano não tem vergonha na cara…”, como que querendo dizer: Ele é desonesto, é falso, é mentiroso, é hipócrita, é corrupto e por aí vai.

Já o contrário é como uma maneira de reforçar o perfil virtuoso e acima de tudo o caráter forte e idôneo da pessoa. O mais comum é dizer: “Fulano tem vergonha na cara, é uma pessoa de caráter”.

Mas veja só como a palavra vergonha é interessante em sua raiz etimológica. Ela é derivada do verbo “vergar”. Ou seja, a pessoa que sente vergonha se verga, se curva diante de outra pessoa ou diante de alguma situação vexatória.

Já aquela que nunca sente vergonha chamamos de cínico. E se você olhar no dicionário verá diversos sinônimos: desavergonhado, descarado, imprudente, impassível, obsceno. E no dito mais popular comentamos que a pessoa cínica é aquela que “a cara nem treme ao falar”. Já ouviu essa expressão? Ela é muito verdadeira.

A cara só pode tremer nas pessoas que conseguem demonstrar suas emoções, pessoas que não se anestesiaram nas suas mentiras, trapaças, cretinices!

Por estudar todos os dias a mente humana, eu consigo perceber facilmente um padrão de frieza, algo que beira o transtorno, na mente das pessoas cínicas. Elas precisariam urgentemente de um acompanhamento psicológico, isso se elas conseguissem aceitar que precisam de ajuda, o que já são outros quinhentos…

Já a vergonha, o ato de se curvar, se dobrar, pode (claro que dependendo do contexto) ser visto como um padrão de humildade. Quem consegue sentir vergonha não se acha um super herói, não se acha invencível, indestrutível, muito pelo contrário, tem consciência da própria pequenez.

Fazendo todas essas interpretações, fico feliz ao olhar para mim mesmo e perceber que tenho vergonha na cara, como diz essa conhecida expressão. E com essa postura humilde e consciente, posso ir muito mais longe dia após dia.

Estamos vivendo tempos difíceis não só no Brasil, mas no mundo todo, onde vemos que está faltando essa vergonha na cara. E veja como essa constatação pode ser perigosa!

“Sinto vergonha, logo existo.”

Se muitas pessoas não sentem mais vergonha, é como se elas deixassem de existir. E sabe o que significa existir? Ela vem da expressão latina EX (fora) + STIRE (ser) = ser para fora.

Se eu não existo é porque o meu EU está preso, está enclausurado dentro de um corpo inerte, um corpo que vem funcionando apenas biologicamente, mas está longe de mostrar todo seu potencial e ser um canal por onde a alma se expresse.

Por que você acha que as séries que falam de zumbis fazem tanto sucesso hein? De certa forma é porque existe uma identificação! Muitas pessoas estão com seu eu preso em corpos sem vitalidade, sem brilho.

Eu vejo os políticos discutindo no congresso e parece que são um monte de zumbis sem sentimento. Vou além! Vejo todos os dias as pessoas conectadas de forma alarmante nos seus smartphones, deixando de viver experiências incríveis, deixando de cuidar da saúde, não compartilhando a presença real com as pessoas que mais amam e trocando quase toda possível interação real pelo mundo virtual.

Tudo isso está inter-relacionado, para que você compreenda a amplitude dessa reflexão.

Há diversos questionamentos que poderia continuar levantando, mas deixarei para textos futuros. O tema da ÉTICA, que é o centro desse texto, eu diria que é inesgotável. Reflita com carinho sobre tudo que coloquei e que de hoje em diante você passe a olhar o sentimento de vergonha com olhos mais profundos e conscientes…

 

 

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