Artesanato da Mente

O poder da escuta atenta

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 “Uma das mais sinceras formas de respeito é ouvir o que o outro tem a dizer, sem interromper.”

Não consegui encontrar a autoria dessa frase lindíssima, mas quero a partir dela refletir com você sobre o poder da escuta atenta.

Eu trabalho como professor e psicanalista e aprendo imensamente com os pacientes que acompanho. Recentemente atendi a uma mulher já idosa e com ares de cansada. Fiquei tão comovido com seu relato que digo com sinceridade que as poucas palavras que dirigi a ela quase não saíram.

Ela passou quase a vida inteira cuidando de um filho que foi diagnosticado com esquizofrenia ainda na adolescência e a doença foi se agravando com o passar dos anos, de forma que ele se tornou totalmente dependente dela para tudo, desde a alimentação até a higiene mais básica. Não entrarei em detalhes por conta do sigilo profissional.

O que quero dizer é que essa mulher é de uma nobreza e bondade tão grande que eu me senti mais do que honrado em poder ouvir o seu relato e ela ter confiado em mim. Ela disse que até já o levou para clínicas psiquiátricas, mas ele não foi bem tratado. Os profissionais de lá não tinham a paciência necessária para cuidar dele em momentos de agitação, então ela decidiu definitivamente nunca mais levá-lo para nenhuma clínica, contraindo diversas pessoas da família.

Enquanto ela falava fiquei 100% presente, ouvindo cada palavra dita por ela. Quando a sessão terminou deu pra sentir como se ela tivesse retirado um enorme fardo das costas. E se eu tiver falado por 2 minutos foi muito! Acredite! Ouvir atentamente é algo mais poderoso do que você pode imaginar.

Outro relato emocionante aconteceu em 2018, no meio de uma aula do curso de Filosofia que estou fazendo. Na aula foi abordado o tema da morte e suas diversas facetas, entre elas o suicídio, tema extremamente complexo e amplo.

Um dos colegas pediu para falar sobre sua experiência com ideação suicida e disse enfaticamente que ele só não tirou a própria vida por causa de um ouvido atento. Ele um dia ligou para o CVV (Centro de Valorização da Vida) e uma voluntária lhe ouviu por mais de 1h praticamente sem interrompê-lo. O máximo que fazia era o conhecido “Unhun”, só para dizer que estava na escuta.

Ao final do seu relato eu e metade da sala estávamos com os olhos marejados, tamanha era a sinceridade das suas palavras. Há um tempo queria contar essa história real em um texto, e fico feliz que nesse veio a devida inspiração para isso.

Aproveito para dar meus sinceros parabéns ao trabalho primoroso desempenhado pelo CVV, que conhecia superficialmente e tive o privilégio de conhecer mais através da querida Adriana Rizzo, voluntária há cerca de 20 anos e que coordena a equipe de comunicação, mídias sociais e internet.

Os voluntários do CVV costumam dizer: “Se nesses quase 60 anos de existência do centro, uma pessoa decidiu continuar vivendo, já valeu a pena por tudo”. É claro que nesse tempo foram milhares e milhares de pessoas que se sentiram mais aliviadas e por isso não atentaram contra a própria vida, mas essa frase é para dizer que toda vida é muito importante e não tem preço, nenhum dinheiro no mundo paga o valor de uma vida.

Ouvir atentamente pode dar um novo sentido na vida de alguém que não esteja conseguindo enxergar sentido algum, pode encher de esperança uma pessoa triste, pode aliviar as tensões de uma pessoa cujo fardo da vida esteja muito pesado, pode trazer um sorriso a uma pessoa que não tem com quem conversar etc. etc.

Exercite essa atitude nobre de ouvir sem interrupções. Dessa forma você estará realizando um bem muito maior do que pode supor…

 

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