Artesanato da Mente

Quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso

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Às vezes algumas imagens falam mais do que mil palavras. Quem mora em São Paulo capital sabe que existem os bairros “Liberdade” e “Paraíso”, sendo bem próximos um do outro. A imagem acima mostra que se você for para um lado se distancia do outro e vice-versa.

Mas você sabia que levando para a realidade isso também é verdade? Quanto mais liberdade você tem, mais se afasta do paraíso religioso, que é a concepção mais comum que se tem de paraíso. E o contrário também se verifica. Quanto mais você se coloca nesse paraíso religioso, mais aprisionado se torna, ficando a anos-luz de distância da liberdade.

Depois que eu aprendi a etimologia da palavra paraíso, nunca mais olhei pra ela da mesma maneira. Ela significa “jardim murado”. Ou seja, os que estão no paraíso pertencem a uma espécie de prisão cheia de flores, mas que não entram em contato com a diversidade das pessoas, suas origens, suas realidades, suas virtudes e defeitos etc.

Sabe aquela velha expressão “cada um no seu quadrado”? A ideia que temos de paraíso se aproxima disso. Perceba! É quase uma condicional. Se a pessoa viveu de forma virtuosa, respeitou as pessoas, os animais, promoveu o bem, fez caridade, não matou, nem fez nada que prejudicasse os semelhantes, ela vai para o paraíso após a morte, que na visão cristã é chamado de céu.

Quem transgredir esses princípios é meio que “condenado” ao inferno, ou seja, se afasta desse paraíso. Particularmente eu acho essa visão um tanto radical. E o que parece óbvio, mas não é, está ligado ao fato de ninguém saber com exatidão o que nos espera após a nossa morte. As religiões de um modo geral tentam dar explicações da vida após a morte sempre trazendo princípios éticos e morais, sendo que eles acabam adentrando o campo do livre-arbítrio e da liberdade.

Aparentemente temos a liberdade de fazer qualquer coisa que quisermos, mas analisando a fundo, vemos que isso não é verdade, pois vivemos numa sociedade que tem suas regras e é natural que assim seja. Um exemplo simples para que isso fique claro. Eu tenho liberdade para matar uma pessoa, porém, arcarei com as inúmeras consequências dessa ação altamente nefasta. Poderei ser preso, poderei ser perseguido e assassinado, ou terei que passar o resto da vida me escondendo para que ninguém me encontre etc. etc. Em resumo eu diria: se vivêssemos numa liberdade absoluta, isso implicaria também num caos absoluto. Por isso precisamos de ordem, de regras, de princípios éticos e morais…

Eu vejo a liberdade como um processo totalmente atrelado com o autoconhecimento. E quero concluir a reflexão trazendo uma belíssima frase da psicanalista Melanie Klein que diz: “Quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso”.

Essa frase permite inúmeras reflexões diferentes, mas levando para o contexto que estou trazendo seria assim, quanto mais eu vou me conhecendo e também adquirindo conhecimentos teóricos ou práticos, mais eu vou aprimorando minha forma de ver a vida, o mundo e a sociedade. Nós nos vinculamos sempre com as pessoas que pensam de forma parecida com a gente, que têm princípios semelhantes, que almejam coisas parecidas etc. À medida que vou me conhecendo, muita coisa vai mudando em mim naturalmente. Porém, os que estão comigo não vão pelo mesmo caminho na maioria das vezes, e tudo bem que assim o seja.

Nessa hora, se há um disparate nas visões de mundo, vai acontecer uma das duas coisas: Ou as pessoas serão hostis e não se agradarão com sua presença ou você se cansará de onde está e das pessoas com quem convive.

Essa é a expulsão do paraíso que a Melanie está trazendo. Esse paraíso pode ser o convívio da família, pode ser um grupo religioso, uma filiação política, pode ser aquele grupo de amigos das boates, pode ser a turma carnívora que odeia comida vegetariana etc. Para cada um desses exemplos que dei poderia me alongar bastante sobre esse disparate nos princípios e o quanto isso leva à expulsão daquele que pensa e age diferente da maioria…

Portanto! Liberdade e Paraíso são duas palavras que dificilmente você encontrará convergência. Faz parte das nossas escolhas saber qual lado acha melhor. Fique à vontade para decidir qual lado dar maior ênfase, eu prefiro muito mais a liberdade ao paraíso…

Só para descontrair! Será que o bairro da Liberdade é melhor de se morar do que o bairro Paraíso? Acho que só quem mora em São Paulo poderia responder a essa pergunta! hehe

 

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