Asas e Flaps

Piloto S/A 2014

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Prefácio

Certa vez estava ouvindo uma palestra publicada pelo site Contato Radar (link da palestra) e o comandante que discursava, falou sobre considerar a nossa carreira de piloto como se uma empresa fosse. Na verdade ele dissera que nossa carreira era a nossa empresa. Nunca havia pensado nisso, mas refletindo um pouco, faz total sentido para qualquer profissão, afinal somos nós quem decidimos se ficaremos na empresa X ou Y, e isso refletirá profundamente no nosso “faturamento anual” tanto no presente e quanto no futuro.

Antes de continuar gostaria de deixar explícito que este texto é uma colocação de análises pessoais, que não tem a intenção de incentivar ou desincentivar ninguém, só utilizarei este para expor alguns pensamentos, e talvez ajudar na decisão dos que se encontram em situação semelhante.

Assim como muitos  aqui, já se foram muitos anos desde a minha primeira hora de voo e muitos outros desde que decidi virar piloto. Hoje tenho maturidade para assumir que nem no meu pior pesadelo eu achei que chegaria aos 30 sem estar voando em uma linha aérea. Tenho pra mim que a culpa é exclusivamente minha, embora seja óbvio que eu não posso afirmar isso com toda certeza, já que não há certeza em algo que não aconteceu na vida de alguém.

O que posso afirmar com certeza então é que, do ponto de vista financeiro, sou 100% culpado por não ter atingido o meu objetivo dentro deste prazo implícito que havia definido para mim. Durante este tempo gastei muito dinheiro com meu curso de piloto, porém, também durante este caminho tropecei algumas vezes e isso custou muito caro, literalmente. É por isso que hoje escrevo para vocês como um aluno do curso de piloto comercial e não como um Comandante de uma grande empresa.

Ok, agora todos sabem que errei no meu planejamento financeiro, contudo, não estou escrevendo para que se solidarizem comigo ou ainda para ler histórias semelhantes de vocês nos comentários. Escrevo porque grandes mudanças estão para chegar, elas aparentemente são inevitáveis. Então vamos lá.

O plano

Passei os últimos dois anos planejando e executando um mirabolante plano para que em 2014 eu pudesse largar minha profissão atual e dar o ponta-pé inicial na minha carreira de piloto. Dentro deste plano, que basicamente concebia uma carteira de INVA ao final, algumas coisas principais deveriam acontecer:

  1. (Objetivo) Juntar grana suficiente para terminar de uma vez e sem interrupções o meu curso. Pois a maneira intermitente que venho realizando minhas horas de voo não tem se mostrado boa, embora eu tenha reprovado apenas 1 missão no PP;
  2. (Objetivo) Além de ter grana para o curso, ter grana para me sustentar por 12 meses sem depender de salário ou ajuda alheia;
  3. (Fato) As empresas estarem contratando.

O problema

Aprendi um pouco com meus erros e em 2 ou 3 meses os itens 1 e 2 estarão superados. Entretanto, como todos sabem o 3 não tá nada fácil, e cada dia parece piorar, seja pela situação econômica brasileira, seja pelo excesso de inércia nas contratações de novos tripulantes ou ainda pela competência da ANAC e SAC, isso tudo sem falar na compra das pequenas pelas grandes.

O questão é que não tenho poder para mudar essa situação, tão pouco vou me prostituir na aviação e muito menos tenho disposição de levar minha família para o interior do Brasil, vivendo numa condição de subsistência e insegurança, só para encher minha CIV de horas de voo.

Certa vez eu disse que “se um piloto começasse a carreira aos 40 ainda teria 25 anos de profissão pela frente”, ainda estou longe dos 40. Então de fato não estou preocupado com a idade, logo minha preocupação é outra (e mesmo para os que já passaram pela idade do lobo, não há motivos para desespero, talvez seja necessário apenas mudar o foco).

Como nada está tão ruim que não possa piorar, ano retrasado a nossa queridíssima ANAC publicou uma nova regulamentação (RBAC 61) onde obriga o candidato a INVA a ter no mínimo 200 horas em comando, era para ter entrado em vigor ano passado, mas foi prorrogado para o final deste semestre.

Resumindo essa salada de frutas chego a alguns problemas, e acredito que são os mesmos de muitos dos alunos que por aqui passam:

  1. Não tenho tempo hábil para terminar de voar meu PC, fazer a banca (já tenho o teórico), fazer o curso teórico e prático de INVA e checá-lo até final de junho de 2014;
  2. Não tenho dinheiro para bancar o restante das horas se tiver que pagar para alcançar as 200 horas de voo em comando;
  3. Ainda este ano a ANAC publicará novas mudanças nos regulamentos aéreos civis, e ninguém sabe ao certo quais serão elas e qual a abrangência das mesmas;
  4. O mercado de trabalho está muito lateral, alguns até cogitam um viés de baixa;
  5. Alguns aeroclubes já começaram a notar a redução no número de novos alunos;
  6. Estamos em ano eleitoral e duvido que a Presidente vá colocar a mão no bolso para fazer decolar o seu fabuloso plano para a aviação regional brasileira.

(H)á solução!?

No meu caso, esperar… Como eu disse lá no início, preciso entender que minha carreira é a minha empresa, meu dinheiro é o resultado do meu suor, e não posso, não quero e não devo investir 80 mil reais em algo que poderá ficar parado e defasando por muito tempo.

Parado porque vou ter gastado tudo que juntei, não vou conseguir voar com a frequência necessária para manter a proficiência, isto é, não colherei frutos deste investimento.

Defasando porque todas as licenças e certificados possuem prazo de validade, e em algum momento tudo estará vencido, ou seja, 80 mil virarão pó, a menos que eu gaste ainda mais dinheiro para ressuscitá-los.

Se eu decidisse por terminar meu curso agora, provavelmente a minha única chance seria uma vaga como instrutor no meu próprio aeroclube, uma remota possibilidade, não por mim, mas pelo mercado.

O fato é que há um imenso CB à frente encobrindo a visão do futuro dos recém formados no PC e dos aspirantes a INVA, principalmente se a nova regulamentação entrar realmente em vigor do modo como esta, isto é, a coisa pode ficar ruim, muito ruim, para a instrução aérea a partir do 2º semestre de 2014. E eu, mesmo que consiga uma vaguinha de instrutor antes disso eu seria apenas um soldado raso, o primeiro a morrer na linha de frente.

Para os alunos das asas rotativas essa situação é ainda mais dramática, 200 horas pagas como piloto em comando em um helicóptero chega a ser uma piada, 500 horas que é o requisito do offshore é utopia (nem vou comentar o Programa da Líder, 250 mil reais, sem garantia nenhuma pós-curso não está em cogitação!).

Conclusão

Caríssimos comandantes, isso é tudo que tenho a dizer. Não quero desanimar ninguém, eu jamais faria isso, vou morrer falando que só tem uma coisa que um indivíduo poderá fazer em sua vida profissional: o que ele gosta! Mas isso não significa empenhar uma vida inteira de sacrifício e economia para “startar” essa profissão no momento errado. As vezes, temos que sentar, analisar e decidir por esperar ao invés de agir.

Desta feita, cada um chegará a sua própria conclusão, sendo que os principais pontos considerados para a minha tomada de minha decisão foram:

  • Meu dinheiro rende mais aplicado do que em uma licença de Piloto Comercial inerte. (Ponto)
  • O mercado brasileiro não está nada bom no momento e não apresenta sinais consistentes de melhora a curto prazo. (Ponto)
  • As mudanças nos regulamentos não se mostram favoráveis à instrução no momento. (Ponto)
  • Eu tenho muitos e muitos anos pela frente ainda, e esperar 1, 2 ou mais anos para aí sim dar um gás na minha carreira não é perda de tempo, é manter o pé no chão e agir com inteligência para no futuro poder alçar voos ainda mais longos do que os faria agora. Usarei os próximos anos para terminar minha faculdade e o dinheiro do curso ficará guardado e trabalhando por si.

Agora se você se decidir, soberanamente, a não se unir a mim, a única coisa que lhe peço é cautela para que você não empenhe seu dinheiro e tempo no curso esperando por uma nova prorrogação da ANAC, pois ela pode não acontecer, e se isso for te prejudicar, talvez seja melhor esperar também.

Ficaria feliz ao ler boas respostas nos comentários, pois toda decisão pode ser reconsiderada se esta ainda não produziu efeitos.

Bom voo se decidires continuar em meio a tempestade ou um bom pouso se optar por esperar o mau tempo passar.

Lembro mais uma vez que essas são as minhas considerações e preocupações a respeito da atual situação.

Um grande abraço.

“Mais vale uma decolagem atrasada do que um acidente no horário.” (Adaptando a tão conhecida frase).

 

Sobre o autor

Sou aluno do curso de Piloto Comercial e tenho como objetivo me tornar piloto de uma grande companhia aérea.