Asas e Flaps

História do APP Aeroclube Politécnico de Planadores de SP – 5ª Parte

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Stearman

CAMPO DE BUTANTà  (cont)

Com o aumento do tráfego aéreo no Aeroporto de Congonhas, ficamos restritos a voar
somente do lado da pista ao longo do Rio Pinheiros, porém muitos aviões “erravam” a perna base no procedimento de pouso e sobrevoavam o nosso campo! Vieram mais restrições e tínhamos que pedir autorização para iniciarmos as nossas operações.
Quando as condições meteorológicas não eram favoráveis (que era a maioria das
vezes) ficávamos fazendo a manutenção do material e conversando sobre o vôo a vela, cortando a grama com uma ceifadeira rebocada por um rebocador de avião que tinha 10
marchas e arrancava com qualquer uma delas, aprendendo a dirigir automóvel, motoneta ou de bicicleta à vela, que era um pedaço da tela do revestimento do Stearman PP-GGI que tinha sido pilonado (capotado) pelo Alberto Colotto.
À noite muitas vezes íamos comer pizza e assistir filmes de Vôo a Vela trazidos da Alemanha pelo Sr. Schubert.
As aulas teóricas eram dadas na Faculdade de Medicina da USP por intermediação do
Dr. Piero Manginelli e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo FAU da USP (Universidade
de São Paulo) pela colaboração do Arquiteto João Carlos Cauduro. Posteriormente quando já operávamos em Jundiaí, no Conjunto das Químicas por intermediação do Prof. Dr. Robert Wasicky nosso sócio e Diretor da Faculdade de Farmácia da USP. As aulas teóricas também foram ministradas nas casas de alunos que possuíssem locais que comportassem mais pessoas.

Curso de projeto e cálculo de planadores e pequenos aviões de turismo

Nas conversas que tínhamos durante o mau tempo, surgiu a idéia de desenvolver um
curso para que aumentássemos a quantidade de projetistas de aeronaves. O Eng.o Sylvio de
Oliveira ficou encarregado de elaborá-lo.

O Programa era:
Aerodinâmica, . Símbolos. Definições. Nomenclatura
. Fatores que influenciam a resistência do ar sobre os corpos em movimento.
. Fórmulas fundamentais
. Arrasto parasita e induzido
. Representação gráfica dos coeficientes adimensionais
. Rendimento aerodinâmico
. Distribuição da sustentação sobre a envergadura
. Características de estol da asa
. Estabilidade
. Desempenho

Projeto

. Estimativa dos pesos parciais
. Determinação do centro de gravidade
. Carga de balanceamento
. Velocidade de projeto
. Envoltória de vôo
. Condições críticas de carga
Resistência estrutural
. Momento fletor
. Força cortante
. Carga axial
. Momento de inércia
. Tensões admissíveis
. Coeficientes de segurança
. Margens de segurança
. Cálculo de longarinas
. Cálculo de treliças
. Cálculo de revestimentos
Aplicação prática

Cada aluno executará o projeto completo de uma aeronave a sua escolha. O programa entusiasmou muita gente e o curso começou sendo ministrado na Escola Politécnica. A referência bibliográfica para o curso era um livro italiano: “L’ALIANTE” (O Planador)

1946_l_aliante

de autoria do Dr. Eng.o Stelio Frati, publicado pela Editora Ulrico Hoepli Milano de 1946, que foi importado para todos os interessados e mais um exemplar para o Clube (que foi recuperado pelo Marcelo Torretta). Como a maioria dos participantes não tinha formação em Engenharia, “boiavam” nas aulas. Aí surgiu a idéia de que o Eng.o Sylvio de Oliveira projetasse um planador para que o grupo o construísse, pois, dessa forma não seria necessária essa base teórica!

Construção de planadores

Como a distribuição de novos planadores pela DAC estava tornando-se cada vez mais
escassa e a renovação conseqüentemente mais difícil, o Leonardo G. Jafet fez um apelo ao
Eng.o Sylvio de Oliveira para projetar um planador, que ele se encarregaria de coordenar a
sua construção. O projeto feito apresentou o seguinte memorial descritivo:

Planador monoplace de alto rendimento
Características do planador
envergadura: 17,1m (original)
comprimento: 6,8m
área da asa: 13,6m2
Performance teórica
planeio máximo: 35 @ 68km/h
afundamento mínimo: 0,58m/s

Nota: Os interessados poderão contribuir com dinheiro, materiais ou mão de obra.
O custo do aparelho será de aproximadamente Cr$ 300.000,00
A mão de obra será computada a base de Cr$ 20,00/h
O planador será dividido em 30 quotas-partes no valor de Cr$ 10.000,00 cada, podendo cada sócio subscrever o n.o de quotas que achar conveniente. As quotas poderão ser transferidas.  Aadministração técnica ficará a cargo do Eng.o Sylvio de Oliviera.
O certificado de propriedade do planador será expedido em nome de todos os sócios
contribuintes.
A Comissão de Administração Financeira ficará a cargo de 3 sócios contribuintes eleitos em uma reunião a ser marcada após a manifestação dos interessados.
Imediatamente houve a adesão dos seguintes volovelistas:

quotas
Marley Chamorro Las Casas 5000,00 5000,00
Dejan Alexander Golik 5000,00 5000,00
Elias L. P. Guerra 5000,00 5000,00
Jacques Resmond 5000,00 5000,00
Ampélio Zocchi 5000,00 5000,00
Luiz H. Ishida 5000,00 5000,00
Sylvio de Oliveira 5000,00 5000,00
Leonardo G. Jafet 5000,00 5000,00
Massud Gebara 5000,00 5000,00
Cláudio di Lascio 5000,00 5000,00
Giorgio Poli 5000,00 5000,00
João R. Jafet 5000,00 5000,00 (tela)
José Miguel Pinotti 5000,00 5000,00
Edson Lahor 5000,00 5000,00
Helgo Sack 5000,00 5000,00
Paulo D. Villares 5000,00 5000,00 (dope)
José C. B. Neiva 5000,00 5000,00 (roda completa)
Breno A. B. Junqueira 5000,00 5000,00 (instrumentos)
Antinous de Carvalho 5000,00 5000,00
Werner Briest 10.000,00

O entusiasmo inicial foi espetacular e os administradores eleitos foram: Leonardo G.
Jafet, Massud Gebara e Antinous de Carvalho.

Com a arrecadação inicial, foi alugado um porão na Rua Botupuca no Cambuci,
próximo a residência do Eng.o Sylvio, compradas as placas de contraplacado aeronáutico,
madeira compensada para fazer os gabaritos, freijó, caseína, papel vegetal, papel manteiga,
pregos, ferramentas, etc. para iniciarmos a construção.
O Eng.o Sylvio ficava detalhando os sub-conjuntos das nervuras, cavernas, etc.,
Enquanto já começávamos a fazê-los diretamente do seu desenho em escala natural em papel vegetal, furando-os com os pregos que serviam de gabarito. A colagem era feita com caseína e para assegurarmos a sua eficácia, sempre preparávamos um corpo de prova, que era testado antes da desmoldagem.
No cômputo das horas trabalhadas, o Massud Gebara descontava os minutos gastos
nos cafezinhos… Dizia que era para termos o total real trabalhado! O trabalho era feito à noite depois do expediente normal das pessoas.
A fuselagem começou a tomar forma rapidamente e o Eng.o Sylvio pediu calma aos
trabalhadores, pois não estava dando conta do detalhamento na nossa velocidade! Era só ele que desenhava e tínhamos várias pessoas trabalhando.
O ambiente começou a ficar apertado e então o Leonardo ofereceu um local no
Ipiranga, onde anteriormente era alojamento dos trabalhadores das Indústrias Jafet e que
abrigava um Grupo Escoteiro. Mudando para lá, dividimos o ambiente com o Caciporê
Torres, artista plástico amigo do Leonardo. Novamente o local tornou-se apertado e levamos o planador para um galpão do Leonardo em São Bernardo do Campo, onde tinha uma fábrica de pulseiras para relógio.

Nesse mexe-mexe, surgiu o nome para o planador: “Galinha”! Sugestão do
Antinous, pois todo mundo punha a mão… Recebeu posteriormente a sigla SP-19 pela
colaboração da Seção de Aeronáutica da Diretoria de Aeroportos, onde foi feita a montagem final das asas, pois necessitava de mão de obra especializada para a montagem das longarinas.
Os vôos de ensaios foram feitos pelo Acácio Maurício de Oliveira Netto e o
“Galinha” recebeu o prefixo PT-ZTA em 1964.

Após os ensaios, devido à possibilidade de ocorrência de “flutter” (ressonância) das
asas, a envergadura final ficou em 16,1m, ou seja, diminui-se em 1,0m.
O dados foram publicados na revista “Aero-Magazine” de maio de 1965 pelo Eng.o  Sylvio de Oliveira.
O planador foi levado a Jundiaí, onde os sócios participantes puderam voar, tendo a
incrível sensação em voar naquilo que tinha sido feito com tanto amor, sacrifício, esperança e carinho.
O mesmo foi totalmente destruído num pouso acidentado do Dejan A. Golik (invés de
pousar rampa acima no morro, tentou pousar ao longo da rampa), batendo a asa no morro e
capotando várias vezes, na Fazenda Amália em Cosmópolis próximo a Campinas, quando
participava de uma prova no XII Campeonato Brasileiro de Vôo a Vela em 1970. No resgate
solicitou que trouxéssemos muita corda… Ao chegarmos ao local o corrigimos: deveria ter
pedido sacos invés de cordas, para recolhermos os cacos!
Paralelamente à construção do Galinha, foi formada a firma “Constelar” e depois
alterada para “Brasaero” pelo Eng.o Sylvio de Oliveira e o Leonardo G. Jafet, que começaram a construir um avião quadriplace e três “Periquitos” projetado pelo Joseph Kovacs e mais tarde o SO-2 “Pinto”, por ser filho do “Galinha”.
O SO-2 “Pinto” foi testado pelo Leonardo G. Jafet, constatando possibilidade de
“flutter” nas asas e foram colocados amortecedores dinâmicos. Num outro vôo de ensaio em  Jundiaí, passou pelo ponto em que ocorreria o “flutter” sem problemas, porém em seguida teve uma asa rompida e o grande incentivador de tudo isto veio a falecer em 18/07/65. Os “Periquitos” foram terminados, porém a construção local de planadores sofreu um choque muito forte com esta grande perda.
Em sua homenagem, o Caciporê Torres esculpiu em 1966 o troféu “Leonardo Gabriel
Jafet” a ser entregue ao Campeão brasileiro de Vôo a Vela de posse transitória e o primeiro a recebê-lo, foi o nosso Ekki Schubert.

Carlos Augusto Marconi   fonte YouTube

Um filme amador de 16mm feito por Haroldo Lopes em 1961. Telecinado por Telecinagem.com. Cedido por Gilberto Gallucci Lopes. Originalmente era mudo. Recebeu trilha sonora por Telecinagem.com. Imagens aéreas de São Paulo. Acrobacias aéreas. Na década de 50 o Aeroclube Politécnico de Planadores era no bairro de Butantã. Atualmente estão em Jundiaí. O piloto de acrobacias é Alberto Bertelli (“véio”), um dos maiores azes que o Brasil já teve. Ainda aparecem Haroldo Lopes, Fernando Quevedo Lopes, Edmundo Bertelli (“o Bertelinho”), Renato Molinari, o Sr. Schubert, Dr. Robert Wasicky,  Virgilio (Instrutor de Planadores), entre outros.

Fim da 5º parte