Blog do Maranhão

Das saudades de ver gente feia

2901asemana2017

“Nada nela era iridescente. Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto”. É assim que a escritora Clarice Lispector descreve a personagem Macabéa, uma nordestina desprovida de graça, protagonista do livro A hora da estrela. Pois esta semana, graças a um infeliz diálogo na novela Malhação (TV Globo) tornamo-nos todos Macabéa. Uns por vontade própria e com muito gosto; é fato, outros por padecer da suposta sina de ter nascido no Ceará.

Aos que passaram ao largo da polêmica, uma breve contextualização. No folhetim, a cearense Sula deslumbra-se com o Rio de Janeiro, onde passou a morar. No capítulo da última segunda, 23, a moça verbaliza uma das razões de seu encanto. “Aqui é tanta gente bonita que tô até com saudade de ver gente feia”. A bom entendedor, meia asneira basta. Se o banzo da feiura coincide com a distância da terra natal, é aqui a nação dos deserdados de Afrodite.

Ante algum esboço de reação, houve os que lembraram que humoristas cearenses se valem da destituição de beleza para identificar seus conterrâneos. “Ô povo feio!”, proclamam. Os que se regozijaram com a pecha defendem o ideal da beleza grega, da qual seríamos distantes. Pobre moços! Tornam-se combustíveis a alimentar o fogo fácil do preconceito contra nordestinos. Caso alguma autoestima, mínima que fosse, houvesse teriam respondido com um sonoro “Aí dentro!”. E estamos conversados.

Émerson Maranhão

Editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

 

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