Blog do Maranhão

Para não desandar a harmonia na avenida

0502asemana2017

Mesmo sem ainda ter começado oficialmente, o Carnaval de 2017 sinaliza que será lembrado por uma polêmica que lhe serve de abre-alas. Para uns, a Unidos do Politicamente Correto ameaça atravessar o samba. Do outro lado, o Cordão das Minorias diz que pede passagem levantando o estandarte do respeito ao outro, mesmo nestes dias em que a ordem é não seguir ordens e em que a subversão faz o passo desavergonhadamente no meio da rua.

Como é sabido, há um movimento para que algumas marchinhas tradicionais sejam postas de lado por ofenderem determinados grupos sociais e até mesmo estimular a violência contra eles. É o caso de O teu cabelo não nega (dos versos “Mas como a cor não pega / Mulata, eu quero seu amor”) e Cabeleira do Zezé (dos versos “Será que ele é?/ Corta o cabelo dele”), entre outras.

A se observar em perspectiva, não falta sentido na iniciativa. Mesmo que em décadas outras estas expressões fossem comuns, hoje é inadmissível ordenar, por exemplo, que se cortem as madeixas de um rapaz, contra sua vontade, para que sua aparência não seja a de um “transviado”.

A indignação dos que veem nestes gestos um cerceamento à liberdade de expressão, logo numa festa definida pelos excessos, é compreensível. Mas recorro a Alice no País das Maravilhas à guisa de contraponto. No livro, o rato pergunta a Alice: “Gostarias de gatos se fosse eu?”. Está aí a chave para a apoteose: experimentar o ponto de vista do outro.

por Émerson Maranhão
Editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

Recomendado para você