Blog do Maranhão

Longa jornada alma adentro

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Famoso por seu trabalho na televisão, o diretor José Luiz Villamarim faz sua estreia no cinema com o longa Redemoinho, lançado hoje em circuito nacional. Protagonizado por Irandhir Santos e Júlio Andrade, o filme mostra o acerto de contas entre dois amigos de infância que passam 20 anos sem se ver

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CONSIDERAÇÕES SOBRE O PARTIR – E O FICAR

Em parceria com o fotográfo Walter Carvalho e o roteirista George Moura, o diretor José Luiz Villamarim faz de Redemoinho, seu filme de estreia, um espetáculo visual. Mas dispensa o conforto para seus espectadores e sofistica ainda mais sua gramática audiovisual, num filme incômodo e necessário

por Émerson Maranhão

 

É véspera de Natal na pequena Cataguases, no interior de Minas Gerais, e dois amigos de infância, Luzimar (Irandhir Santos) e Gilson (Júlio Andrade), reencontram-se depois de muitos anos sem se ver. O primeiro nunca saiu da cidade e trabalha numa tecelagem. O segundo acaba de chegar de São Paulo, para onde se mudou ainda pequeno. O encontro ao acaso serve de oportunidade para que ambos coloquem assuntos em dia. E, mais que isso, acertem suas contas com um grande segredo do passado.

Este é ponto de partida de Redemoinho, filme de estreia de José Luiz Villamarim, que chega hoje ao circuito exibidor em 12 capitais brasileiras, incluindo Fortaleza. Diretor de grandes sucessos da TV, como as minisséries Justiça, Amores Roubados, O Canto da Sereia e O Rebu, todas na Rede Globo, Villamarim se cercou de fiéis parceiros para realizar sua aguardada primeira incursão na tela grande.

A fotografia do longa é assinada por Walter Carvalho (o mesmo fotógrafo responsável pelas imagens das séries citadas no parágrafo acima) e o roteiro, uma adaptação do livro Inferno Provisório – O Mundo Inimigo Vol. II, de Luiz Ruffato, foi escrito por George Moura, com quem Villamarim também trabalhou em O Canto…, Amores… e Rebu. No elenco, junto com Irandhir e Júlio, os protagonistas da história, estão as atrizes Dira Paes (Toninha, a mulher de Luzimar), Cássia Kis (Dona Marta, a mãe de Gilson) e Cyria Coentro (Hélia, irmã de Luzimar), além do cearense Démick Lopes (Zunga).

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Acertos

E é o elenco o primeiro acerto evidente do filme. Apesar de ter um papel secundário, é arrebatadora a atuação de Cássia Kis, como a abandonada mãe que recebe a visita do filho no Natal. Num trabalho marcado pela sutileza, a atriz consegue transmitir a carga dramática que sua personagem carrega. Na maioria das cenas, valendo-se apenas de expressivo silêncio. A interpretação de Cássia faz lembrar outro grande momento da sua carreira, quando deu vida à prostituta Carolina em Amores Roubados (2014).

Também com papéis pequenos, e os defendendo com muita entrega e gana, Dira Paes e Cyria Coentro têm desempenhos notáveis. E a performance de Démick Lopes chama atenção por se dar através de um personagem difícil e praticamente sem falas.

Mas é ao lado de Irandhir Santos e Julio Andrade que o espectador segue pelos trilhos e pontes de Redemoinho. Dois dos mais talentosos atores da atualidade, ambos construíram seus papéis no filme em tons opostos.

Enquanto em Luzimar é flagrante, inclusive corporalmente, o sentimento de inferioridade perante o mundo, Gilson esbanja arrogância em seus gestos largos e atos de ostentação. Ainda assim, tanto um quanto outro deixam perceptíveis ao público várias camadas psicológicas que os personagens guardam. Nuances estas que os aproximam mais do que os afastam, e que serão motrizes dos conflitos que surgirão ao longo da narrativa.

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Sofisticação

A presença de um elenco global, a quem o público está acostumado a ver em produções televisivas no horário nobre, assim como sua ficha técnica estelar, pode sinalizar que Redemoinho seja um produto para as massas, de fácil assimilação. Definitivamente, não é. Em seu filme de estreia, Villamarim sofisticou ainda mais sua gramática audiovisual, que já havia lhe dado merecido reconhecimento na TV, e valeu-se como nunca de subtextos nas cenas.

No longa, o metafórico sobrepõe-se a funções narrativas ou meramente ilustrativas na construção das sequências e a arquitetura dos enquadramentos de Walter Carvalho é de um rigor técnico e estético ímpar. Salta aos olhos o trabalho minucioso da fotografia – assim como o da direção de arte de Marcos Pedroso (que também fez Praia do Futuro, de Karim Aïnouz).

Para alguns críticos a quem o filme não agradou de todo, privilegiou-se a forma em detrimento ao conteúdo em Redemoinho. De fato, o filme é um espetáculo visual, mas é injusto acusá-lo de se restringir a isso. É notável a preocupação com a urdidura imagética e cênica, mas ela não traz função exclusivamente estética, e sim intenções (ou pretensões, vá lá!) narrativas, indicando pistas dramáticas ou ampliando possibilidades de compreensão do que ainda não está (e nem chegará a ser) dito na tela.

Duvida? Então recomendo atentar para a função dramática do trem e seus trilhos na narrativa (sendo ao mesmo tempo um ponto de fuga e o sinal claro do eterno retorno, de imobilidade), à corrente da bicicleta que sai do eixo (anunciando o que está prestes a acontecer com a vida dos personagens), à maneira como os três amigos de infância são apresentados, aos tons que prevalecem na fotografia, à referência às parcas, deusas da mitologia grega, logo na abertura do longa; e à imobilidade com que a fotografia traduz a ausência de progresso da cidade, entre outros muitos recurso indiciais.

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Afastamento

Redemoinho é um filme complexo, difícil, para ser visto mais de uma vez. E de fato merece esta segunda oportunidade de leitura. Mas isso chega a ser um paradoxo. A condução que Villamarim e Carvalho optaram por dar ao longa implica o afastamento do espectador. Nós, que estamos do outro lado da tela, somos intrusos, não nos é permitido vivenciar os principais diálogos dos protagonistas de igual para igual, não somos bem-vindos ao olho do furacão desta história. Sequer convidados somos.

Por decisão do diretor e de seu fotógrafo, sobram-nos as frestas, as brechas, o corredor da casa, o banco traseiro do carro quando a ação se dá do lado de fora, a visão de um crime pelo vidro da janela do outro lado da rua. E que nos contentemos com isso. Somos relegados a posição de voyeurs envergonhados. O que nos é permitido são olhares enviesados para a conversa alheia, quase que nunca negação da presença que a ilusão do cinema nos acena.

Para além deste recurso metalinguístico, ainda que às avessas, de que Villamarim se vale, o cineasta nos oferece um ensaio audiovisual sobre duas questões que embasam seu longa: a pertença (ou a falta de) e o peso das escolhas que fazemos (ou deixamos de fazer). ‘Até onde errei em ficar na cidade onde estou?’ ‘Até onde eu acerto em partir?’ ‘Até que ponto eu pertenço ao lugar em que me coloco?’ (e essa reflexão não é meramente geográfica, é existencial). Até os trilhos da ponte de Cataguases parecem se fazer estas perguntas em Redemoinho.

O filme não responde a nenhuma delas. E esta é uma de suas qualidades. Como é sabido, à arte cabe incomodar, futucar, angustiar, e não oferecer respostas de autoajuda. Também por isto, para além do encantamento visual que carrega e da excelência de seu elenco e equipe técnica, o filme de Villamarim vale a pena ser visto.

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SAIBA MAIS

– O filme foi rodado ao longo de dois meses na cidade de Cataguases, na Zona da Mata mineira, a 320 km de Belo Horizonte.

– Antes de estrear, Redemoinho ganhou o Prêmio Especial do Júri Oficial e o de Melhor Ator para Julio Andrade no Festival do Rio 2016.

– Também participou da seção oficial Opera Prima no Festival de Havana;  da 40ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo; e da 10ª Mostra de Cinema de Belo Horizonte.

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– José Luiz Villamarim nasceu em 1963 em Três Marias (MG), morou sete anos em Ipatinga (MG), depois morou em Belo Horizonte até os 28 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro, onde vive até hoje.

– O processo de adaptação do livro para o roteiro levou 10 anos. O roteiro teve várias versões e participou do laboratório promovido pelo Festival de Sundance, nos Estados Unidos.

– O primeiro trabalho que Villamarim e Walter Carvalho realizaram juntos foi a novela O Rei do Gado (TV Globo, 1996).

– Apesar de interpretarem mineiros, nenhum dos atores principais de Redemoinho nasceu em Minas Gerais. Júlio Andrade é gaúcho, Irandhir Santos é pernambucano, Cássia Kis é paulista, Dira Paes é paraense, Cyria Coentro é baiana, Démick Lopes é cearense e Camilla Amado é carioca.

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– A única integrante mineira no elenco é a atriz Inês Peixoto, que faz uma pequena participação no papel de uma prostituta.

– O filme que discute se é melhor partir do lugar em que nasceu ou ficar na terra natal tem sua equipe principal composta por migrantes. Além do mineiro Villamarim são radicados no Rio de Janeiro o paraibano Walter Carvalho e o pernambucano George Moura. O paranaense Marcos Pedroso se divide entre o Rio e São Paulo.

– Cataguases, a pequena cidade onde Redemoinho foi filmado, já teve um importante polo de produção cinematográfica brasileiro. Nos anos 1920, no movimento conhecido como Ciclo de Cataguases, a cidade revelou Humberto Mauro, o primeiro cineasta de destaque no cinema nacional.

– Lá, ele filmou títulos como o clássico Brasa Dormida. Em 1930, Mauro também migrou, mudando-se para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar na Cinédia.

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