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O despertar do canto da sereia

Ainda que demonstre pouca habilidade no trato com intelectuais e artistas, o governo Temer acreditava finalmente navegar em tempos de calmaria, depois das tormentas que enfrentou em seu início. Aqueles foram os dias do protesto da equipe do filme Aquarius no tapete vermelho em Cannes, e a consequente retaliação mal-disfarçada à obra e seu criador, o cineasta Kleber Mendonça Filho, dentre outros vexames federais. Mas isso parecia ter ficado para trás. Pobre do marujo e do capitão que se fiam na calmaria aparente. Nos últimos dias, Temer voltou a ser alvo de protestos aqui e além-mar.

No Festival de Cinema de Berlim, um dos três mais importantes do mundo, o cineasta Marcelo Gomes, participante da Mostra Competitiva, leu um manifesto, assinado por ele e diretores e produtores de outros 10 filmes nacionais, denunciando ser este “um governo ilegítimo” e que “há uma grave crise democrática no Brasil”. No dia seguinte, ao receber o Prêmio Camões, o escritor Raduan Nassar criticou o governo Temer, defendeu a ex-presidente Dilma e concluiu seu discurso justificando: “Não há como ficar calado”.

Repetindo erros da tormenta anterior, o atual ministro da Cultura Roberto Freire, que havia manobrado para ser o último a falar na solenidade, reagiu de pronto e atacou publicamente homenageado e seus defensores. Como que iludido pelo canto da sereia dos que o cercam, Temer talvez acreditasse ter apaziguado o mar. Agora, que as ondas se levantam altas e sem aviso, talvez acorde deste encanto.

por Émerson Maranhão

Editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

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