Blog do Maranhão

Quando a realidade atropela a ficção

“As pessoas vão pensar o que eu disser para elas pensarem”

Orson Welles, em Cidadão Kane (1941)

 

O calendário marcava 17 de maio de 2016 quando o cineasta Kleber Mendonça Filho, o elenco e a equipe técnica do filme Aquarius cruzaram o tapete vermelho do Festival de Cannes, um dos mais importantes eventos cinematográficos do mundo, e denunciaram o que consideravam ser um golpe na democracia brasileira. Cinco dias antes, a presidente Dilma Rousseff (PT) havia sido afastada das suas funções pelo Senado, acusada de dar pedaladas fiscais, e o então vice-presidente Michel Temer (PMDB) assumira o comando do País.

Exatamente um ano depois, no mesmo dia 17 de maio, Temer vê seu mandato prestes a ruir, depois do vazamento de uma delação premiada feita pelo empresário Joesley Batista, da JBS. Em depoimento à Procuradoria Geral da República, Joesley assegurou que Temer deu aval à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB) e do operador Lúcio Funaro, ambos presos na Operação Lava Jato. O dono da JBS chegou a registrar a conversa com o presidente valendo-se de um gravador escondido na roupa.

Uma das primeiras lições aprendidas pelos que estudam dramaturgia, tanto para o cinema quanto para TV ou teatro, é a importância de um recurso narrativo chamado “Turning Point” (ou “Plot Point”, como alguns preferem). O tal Ponto de Virada é definido como “um incidente, episódio ou evento que ‘engancha’ na ação e a reverte noutra direção”, ou seja, o momento crucial em que a história tem uma reviravolta.

Houvesse sido assinada pelos maiores roteiristas do mercado internacional, a história que acontece hoje no Brasil não teria um Turning Point tão bem amarrado, azeitado e antecipado dramaticamente. Além do fato da iminente queda de Temer, a delação também provocou a ruína política de um aliado de primeira hora de seu governo, o senador tucano Aécio Neves, denunciado por receber propina de R$ 2 milhões da mesma JBS.

Isso, num cenário em que o PT, seu comandante-mor, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu primeiro escalão dominavam a mídia com denúncias de corrupção e eram os personagens da vez a cada nove entre dez delações premiadas. Onde se especulava todo dia a prisão de Lula e ansiava-se pela delação de Palocci. Mas aí, qual na canção Roda Viva de Chico Buarque, chegou o tal do Turning Point e jogou para lá, de ponta a cabeça, qualquer expectativa que havia.

E é aqui um ponto em que a trama ganha nova relevância (e novos personagens). Há uma semana, sete cineastas brasileiros anunciaram boicote ao 21 Cine PE, que ocorreria de 23 a 29 de maio deste ano. O motivo da retirada coletiva de filmes selecionados para mostras competitivas do evento foi a programação completa do festival, que, segundo estes cineastas, “favorece um discurso partidário alinhado à direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016”.

Os cineastas apontam como evidência deste alinhamento à direita a seleção do documentário O Jardim das Aflições, sobre o filósofo conservador Olavo de Carvalho, para a principal mostra competitiva do festival. Assinado pelo diretor Josias Teófilo, o longa é patrocinado por uma editora que está preparando uma biografia do deputado Jair Bolsonaro e por um site que defende o ensino domiciliar.

Cena do filme “Real – O plano por trás da história”

Além dele, o filme de abertura do evento seria o longa Real – O Plano por Trás da História, de Rodrigo Bittencourt, um thriller que conta a história da  criação da moeda em 1993, no governo Itamar Franco. Os críticos do filme o acusam de mitificar FCH, Gustavo Franco & Cia, inflando sua relevância e elevando-os ao papel de heróis da História (esta, com H maiúsculo mesmo).

Não por acaso, o Cine PE é um festival realizado pela empresa de Alfredo Bertini, que assumiu a Secretaria do Audiovisual no início do governo Temer, comandou uma perseguição institucional contra Aquarius e seu diretor Kleber Mendonça Filho, e teve sua brevíssima gestão (ficou apenas seis meses no cargo) marcada por polêmicas como a demissão de funcionários do Minc, a exoneração da cúpula da Cinemateca Nacional, e a nomeação de Oswaldo Massaini Filho, que responde a um processo por estelionato, para comandar a entidade.

Há que se ter olhos para ver onde estes pontos, aparentemente soltos e desconectados, convergem. Observadores atentos notam, já há algum tempo, um esforço estratégico para levar às narrativas audiovisuais uma visão política de centro-direita, ou até de direita mesmo. O filme Real – O Plano por Trás da História, por exemplo seria a ponta do iceberg desta movimentação, assim como o foi a seleção do Cine-PE.

Cena do filme “Que horas ela volta”

Esta estratégia seria uma espécie de “contra-ataque” ao que determinados setores de direita classificam como “doutrinamento ideológico da esquerda” na maioria dos filmes nacionais da última década, que assim “disseminariam suas ideologias” em títulos como Que horas ela volta,  de Anna Muylaert, e até o próprio Aquarius. A ideia é valer-se das narrativas audiovisuais de grande alcance (projetos de blockbusters) para, subliminarmente, apresentar uma visão de mundo e de valores que se contrapusesse ao discurso corrente, supostamente mais alinhado à esquerda, digamos assim.

Não é nada de novo no front, para não fugir a um trocadilho cinematográfico. O cinema teve papel fundamental, como é sabido, na divulgação do american way of life para o mundo, massivamente a partir da Segunda Guerra Mundial. Esta compreensão que a Sétima Arte tem função estratégica na disseminação de comportamentos e de padrão de valores, e tem potencial influenciador de plateias continentes afora, impera há mais de seis décadas e foi usada a não mais poder pelo governo brasileiro durante a Ditadura Militar.

Cena do filme “Polícia Federal – A Lei É para Todos”

Ela agora só volta à ativa. E a cereja deste bolo seria o filme Polícia Federal – A Lei É para Todos, que se propunha a levar aos cinemas de forma “muito imparcial” a história da Lava Jato. Dirigido por Marcelo Antunez, o longa teve orçamento de R$ 15 milhões, mas os investidores mantém sua identidade sob sigilo. Nas suas duas horas e 10 minutos de duração, o filme “aborda os primórdios da investigação e termina com a ida compulsória de Lula para prestar depoimento na PF, quatro meses antes de virar réu da Lava Jato”.

Previsto para estrear agora em julho, o filme corre o risco de cheirar a mofo já na sua avant-premiére. Com tantos turning points radicais ocorridos depois do grand finale escolhido pelo diretor, roteirista e produtores, Polícia Federal tem enormes chances de já nascer caduco, distônico e, ao que parece, sem fôlego para cumprir sua suposta missão de angariar simpatias à direita e desgostos à esquerda.

Enquanto isso, novamente em Cannes, desta vez para presidir o júri da prestigiada Semana da Crítica, Kleber Mendonça Filho deve estar sorrindo, entre um gole e outro de um bom vinho, ao ler as notícias sobre o Brasil neste maio de 2017.

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