Blog do Maranhão

Bom mesmo é achar ruim

Outrora, já fomos conhecidos como o “País do Futebol”, “Terra de Samba e Pandeiro”, “Nação do Carnaval”. Há mais de sete décadas, esperamos por um futuro glorioso que nos legitime a importância antevista pelo escritor austríaco Stefan Zweig. E nada. Hoje, a olhos vistos, a nossa definição possível é um epíteto pouco elogioso. Somos a “Terra da Treta”. Com a amplificação do alcance proporcionada pelas redes sociais, o verdadeiro hobby nacional tornou-se ‘tretar’, neologismo que ainda não consta nos dicionários, mas que pode ser traduzido como “polemizar com o intuito de provocar intensa reação em sentido contrário”. Não basta ter opinião, é preciso “causar”.

É nesta perspectiva que o anúncio do retorno dos Tribalistas movimentou a web na semana que passou. “Nada está tão ruim que não possa piorar: os Tribalistas voltaram” foi um dos muitos memes que tomaram as redes. Como se o reencontro profissional de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown tivesse algo com a profunda crise que o País atravessa ou como se não fossem muitos os fãs do trio a celebrar a notícia. Não gosta? É só não ouvir. Pronto. Mas, nada! Há que se reclamar. E muito.

Reclamar dos spoilers daquela série que vazaram, do sucesso de tal cantor sertanejo, de quem vai para micareta, do show em homenagem ao Milton… E no meio de tanta treta, acabamos sem perceber que o que realmente nos move é a intolerância, a incapacidade de admitir a existência do que nos é diferente. Se ambicionávamos honrar a previsão de Zweig acabamos por fazer jus a constatação do belga Claude Lévi-Strauss, tristes trópicos.

Émerson Maranhão é Editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

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