Blog do Maranhão

Sobre dissonâncias com o espelho

Difícil imaginar um incômodo maior que o não se reconhecer no próprio corpo. Ou um transtorno mais devastador que não ser representado pela estrutura física que tem como função primordial nos dar forma. É esta inadequação corporal que marca a trajetória de pessoas transgêneros, um assunto que ora é varrido para debaixo do tapete, em nome da “moral e dos bons costumes”; ora é tratado com galhofa, por uns tantos que assim disfarçam sua total falta de alteridade.

Por destoar completamente deste modelo, a novela A Força do Querer, escrita por Gloria Perez e exibida pela TV Globo em horário nobre, já se tornou um marco na nossa teledramaturgia. Pela primeira vez na TV brasileira, a questão da transexualidade é protagonista, sem causar rejeição do público. Ao mostrar o lento processo de descoberta da identidade de gênero da personagem Ivana, interpretada brilhantemente por Carol Duarte, a trama conseguiu conquistar a empatia do espectador, que passou a partilhar as angústias do rapaz trans.

O pico emocional deste processo deu-se nesta semana, na sequência em que Ivana se anunciou Ivan para a família e pediu para não ser abandonado. Ainda que leve a pecha de excesso de didatismo, Gloria Perez mostrou domínio narrativo e delicadeza raros e emocionou o País. Mais. Faz de Ivan uma atualização do Patinho Feio criado por Hans Christian Andersen, que depois de muito sofrer um dia descobre a razão de sua dissonância com o espelho.

Émerson Maranhão é Editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

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