Blog do Maranhão

Caetano, de volta ao olho do furacão

É grande a tentação de abusar de trechos de canções de Caetano Veloso para comentar a inacreditável decisão da juíza Ida Inês Del Cid, da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo do Campo, de proibir o show que o baiano faria no acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Desde as mais óbvias e auto-explicativas, como É proibido proibir, clássico do emblemático ano de 1968; ou Não Enche, lançada há 20 anos no disco Livro. Até a sutileza de certos versos de O Estrangeiro (”Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita”). Mas o leitor de tão nobre espaço não merece obviedades. E por isso, resisto à sedução deste recurso tal qual os poetas se esforçam para não se encantar por rimas fáceis.

Esforço e zelo que claramente faltaram à magistrada nas argumentações para sua polêmica decisão. À guisa de justificativa, a meritíssima valeu-se do brilhantismo do artista e da beleza única de sua voz para vetar a apresentação. Em sua sentença, inexistem razões outras que não a preocupação com a integridade física da plateia em show de artista com tal envergadura.É, pode ser. Pode ser que não seja censura, que a matiz política não tenha sido considerada, que a motivação tenha sido exclusivamente humanitária. Mas não é esta a impressão que fica. Ainda mais em dias tão anacrônicos como os que vivemos hoje.

Não à toa, é justamente Caetano Veloso, ícone de resistência em tempos de ditadura escancarada, que volta ao centro da cena em novos embates públicos por liberdade de expressão. Alguma lógica há de ter.

Émerson Maranhão é Editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

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