Blog do Maranhão

Torquemadas contra o século XXI

Fosse me dado o poder de desver, minhas retinas fatigadas não registrariam uma nesga sequer de duas cenas dantescas que atravessaram a semana. Na primeira, manifestantes se reuniram no portão do Sesc Pompeia, em São Paulo, para protestar contra a participação da filósofa e escritora norte-americana Judith Butler em um colóquio acadêmico. Como se a intolerância ao livre pensar e a opressão aos que a ele estimulam não fossem por si só indício do espírito inquisitorial que serve de leitmotiv a tal grupo, os manifestantes explicitaram suas intenções torquemadescas. Atearam fogo a uma boneca em tamanho natural com o rosto da escritora, enquanto gritavam: “Queimem a bruxa!”.

Três dias depois, Judith e sua esposa, a professora Wendy Brown, foram perseguidas e agredidas verbalmente por duas mulheres e um homem, em um aeroporto. Intelectual respeitada internacionalmente e uma das principais pesquisadoras do feminismo e da Teoria Queer, Judith foi agredida no Brasil por supostamente ser a “mãe da Ideologia de Gênero”, a que seus detratores responsabilizam pelo “fim da infância”.

Com estes atos de violência contra a escritora, assistimos ao estabelecimento de uma anacrônica Idade das Trevas em nosso País. E o pior, desconfio que seja apenas o começo. A Caixa de Pandora foi aberta, não duvidem. Aguentemos as consequências.

Émerson Maranhão é editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

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