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O conservadorismo é violento, diz Marco Nanini nas Páginas Azuis

O conservadorismo é violento

A vitalidade cênica de Marco Nanini é um traço marcante. Aos 52 anos carreira, ele acaba de protagonizar um filme e se prepara para estrear a novela Deus salve o rei, da Globo

01:30 | 18/12/2017

Aurélio Alves
Aurélio Alves

Quando Marco Nanini, 69, não está nos personagens, a discrição assume o comportamento. Tom de voz comedido, gestual discreto e a confissão de que mais de três pessoas no encontro desenham uma multidão. Mas não há silêncios. A prosa pode até ser sobre vida privada, porém não há espaço para espetacularização do que considera natural como, por exemplo, a liberdade de orientação sexual de cada um. O avanço do conservadorismo no Brasil, reage o ator, é uma forma de crueldade.

De passagem por Fortaleza, onde ficou por 45 dias para as gravações do longa-metragem Greta, do cineasta cearense Armando Praça, Nanini recebeu O POVO para uma conversa na sacada de um apartamento que olha para “a praia dos Crush”, no mar de Iracema. “Território de uma criatividade” que inquietou Nanini e o fez provar da cidade.

 

O POVO – A arte dramática chegou como em sua vida?

MARCOS NANINI – Por circunstâncias da vida, fui cair numa aula de voz que era dada na casa paroquial. Aos sábados, os fiéis que liam as epístolas na igreja se reuniam para ter uma aula de voz. Foi minha primeira experiência nesse sentido. E lá eu conheci um ator chamado Pedro Paulo Rangel, até hoje é meu amigo, e descobrimos que havia uma escola de teatro no Rio de Janeiro. Lá fizemos o vestibular, passamos os dois e fizemos a escola. Eu considero minha entrada na arte dramática o meu encontro com esse grupo de teatro, porque eu fiquei muito amigo deles todos. E tinha muito ator da velha guarda fazendo uma peça infantil nos fundos da igreja. E eu acabei entrando numa peça, ganhando um cachê para fazer um papel pequeno. Era a peça O bruxo e a rainha, eu fazia um bruxo. A partir daí… Eu entrei para fazer esse bruxo e na primeira vez que eu entrei no palco, tive uma das maiores emoções que eu já pude ter. Inesquecível, porque foi uma coisa muito forte, muito boa.

 

OP – Qual era a sua idade?

NANINI – Nasci em 1948… acho que foi em 1968. Exatamente, foi em 68, porque eu lembro que a estreia da peça caiu exatamente no dia em que mataram aquele estudante no Calabouço, no Rio, o Edson Luís (morto por PMs durante uma manifestação contra a ditadura militar). E aí foi um trauma violento, a estreia não se concretizou, evidentemente, foi no dia seguinte, a estreia aconteceu e a produção deu uma rosa branca para cada espectador. Bom, era 1968, eu tinha 20 anos.

 

OP – Como foi a experiência de passar 45 dias em Fortaleza (para as filmagens do longa Greta)?

NANINI – Foi confortável, porque minha mãe falava sempre das coisas do Recife, do Nordeste. Eu já conhecia de uma certa maneira uma certa ligação pro lado de cá, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará. Então, eu estava sempre em contato com esses detalhes que ela relembrava. E eu, por conta do trabalho, sempre viajei pelo lado de cá. Então facilitou minha aproximação. Mas… em Fortaleza eu nunca tinha passado tanto tempo. Acabei me apaixonando pela cidade. Adorei. Porque… aqui é a Praia do Crush?

 

OP – Isso mesmo, Praia do Crush.

NANINI – (Risos) Aqui eu estou num camarote. Passo o dia aqui. Fico vendo, essa praça é uma coisa incrível! Aqui acontece um fenômeno que eu nunca tinha percebido nos lugares, porque eu estou aqui o tempo todo. É uma criatividade popular para se divertir nesse território, que é inacreditável. É de você ficar emocionado até, porque vem muita gente pra cá, para andar de patins, skate, e tem uns que andam de bicicleta, aquelas bicicleta de carrinho, ai vêm senhoras, senhores, é… rapazes, jovens, crianças, gays, héteros. É uma loucura isso aqui de tão bonito que é! Os próprios frequentadores fazem a diversão, às vezes eles põem um… às vezes não constantemente, um… um… negócio aqui de som. Mas eu… eu tenho a impressão que esse palco deveria ser mais… Eles deveriam fazer uma coisa que é só pra essas atividades porque há uma criação genuína… Ah, e eles não se batem! Eu até falei para o pessoal do filme: “Vocês têm que passar um dia lá na varanda onde eu estou para aprender circulação de figuração”, porque é tão criativo isso. Cada um inventa um negócio e não se batem, não tem mal humor, não tem estresse, é lindo… é lindo! Enfim, tive uma sorte de cair aqui, adorei essa praia.

 

OP – Nanini, como você escolhe seus papéis?

NANINI – Vou dizer que seja 70% de intuição e 30% de análise de qualidade, de análise técnica, de possibilidades. Nesse caso aqui…

 

OP – Era justamente esta a minha questão, sua chegada ao elenco de Greta?

NANINI – Pois é, porque o Armando (Praça), que eu não conhecia… Eu sei que aqui tem um movimento forte de cinema, né? Muito respeitado, felizmente, um núcleo de artistas muito interessante, que me chamava atenção. Aí o Armando chegou no Rio e desde a primeira vez que eu o vi a impressão foi das melhores. E vi que ali tinha um artista completo. E era um roteiro muito bom, interessante, bom, perfeito, técnico, e gostei muito da pessoa dele e me comoveu a ligação dele com esse filme. Há 12 anos que ele prepara esse roteiro, e que tá filmando agora em baixo orçamento o filme. Aí eu falei: “Poxa, uma oportunidade boa que apareceu de eu conhecer esse movimento”. Eu gostei. Quase que de cara eu aceitei, só faltava organizar a parte de agenda, mas aí marcamos uma data com antecedência, eu pude me organizar, e agora eu terminei o filme.

 

OP – Mas tem essa historia de gostar de cara do personagem que estão lhe oferecendo?

NANINI – Esse personagem era conhecido não desta forma, na peça (Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá, de Fernando Melo), eu vi essa peça, era Mário Gomes que fazia… Depois o Raul Cortez fez. Na peça é assim, é um homossexual que encontra um rapaz do interior, e eles vão se conhecendo, vai acontecendo uma relação entre eles. Aqui o Armando pegou esse trecho pra servir de base, mas ele introduziu toda a história de uma outra maneira, mais moderna, mais pros tempos atuais. Então, é… Eu não vou contar porque se não estraga (risos)… Mas é… é transportar pra cá, ter outros valores. No filme também tem coisas como… Tem uma transexual no filme, que é feita pela Denise Weinberg, que é uma mulher (cisgênero). Tem uma mulher (cisgênero) que é feita pela Greta Star, que é uma trans. Tem uma das policiais, que tem uma cena, que também é interpretada por uma trans. Nada disso é falado, né? Nem quem a Denise faz uma transexual, que a Greta faz uma mulher… Achei moderno esse jeito dele encarar os personagens, fazer a seleção de atores, distribuindo essa coisas com muito cuidado etc. É um filme também que vai ser jogado as feras, né? Porque mexe muito com o assunto que ainda não é muito palatável… Tá sendo, né?

 

OP – Foi tema da novela A Força do Querer, da Glória Perez, recém exibida.

NANINI – Porque esse assunto veio à tona, né? Nessa novela, assim, de uma maneira forte e tal. Também a gente está vendo na imprensa uma coisa bem diferente, todas as trans que estão aparecendo. E elas não nasceram da noite para o dia! Elas estavam embutidas em algum preconceito e agora estão se libertando. E acho isso muito bom, porque que história é essa de você ficar vigiando a vida sexual de uma pessoa? Qual é o prazer que tem nisso? Pra mim é uma deficiência psicológica, você estar interessado em saber com quem fulano trepa, com quem que ele trepa… Eu lá quero saber disso? Eu estou interessado em saber com quem eu trepo! (risos) Fora isso, tá tudo liberado pra mim (risos).

 

OP – Por falar nisso teve uma repercussão muito grande a entrevista que você deu à revista Bravo, falando com quem você ‘trepava’. Você esperava aquela repercussão?

NANINI – Olha, vou te falar uma coisa, eu não gosto de usar a minha vida pessoal contra ou a favor de personagem. O personagem tem que estar isento e eu tenho que estar preparado para vivê-lo e admiti-lo e buscar alguma realidade. Mas, por conta desse exagero de curiosidade, as pessoas sempre insinuavam alguma coisa. E eu nunca escondi essa situação! Sempre esteve lá pra quem quisesse ver. Agora, eu não declarava, porque eles querem uma confissão, vamos dizer assim. As pessoas querem uma confissão bombástica! Se não tiver essa confissão, a repercussão é pouca. Mas também eu não queria fazer disso um evento, porque eu acho super normal. Eu já estava com uma certa idade e vi se agravarem as agressões aos gays. No caso, estávamos em uma época que haviam agressões, teve um ataque em São Paulo, totalmente covarde na Avenida Paulista…

 

OP – O das lâmpadas, em 2010?

NANINI – Aquele ataque com as lâmpadas… Quer dizer, covarde e escroto. Se isso é ser masculino, eu não sei que tipo de masculinidade é essa. Acho que é meio suspeita essa masculinidade, né? Então, eu falei: “Bom, essa coisa tá se agravando, vai chegar uma hora em que eu vou ter que me definir. Não posso ficar eternamente… Mesmo que eu não seja da polícia (risos)”. Então, que história é essa? Eu não quero que minha relação mude. Minha relação sempre foi assim com todo mundo… Tive a sorte de concorrer a um prêmio da Bravo, ganhar o prêmio, e a revista me entrevistou. E o repórter era excelente… Excelente, discreto, não abordou esse assunto. Nada, nada, nada. E ele falou, antes: “Nanini, eu não sei o que mais perguntar pra você, porque já peguei o seu depoimento várias vezes e tal, mas vamos tentar”. E eu disse: “Vamos”.

 

OP – Você deu a deixa.

NANINI – No meio da entrevista, eu senti que ele era um repórter absolutamente confiável, e joguei duas frases. Foi o suficiente. Essa revista não fez sensacionalismo, não levou pro título, não levou pra capa. (A homossexualidade). Era citada normalmente, como gostaria que fosse. Não pedi nada disso, nem conversei sobre esse assunto. Ele também tomou um impacto assim e ficou quieto. Achei oportuno e acertei. Aí teve essa confusão toda, mas venho de uma parte disso porque eu fiz o que achava que tinha que fazer e percebi depois que só se agravou. Achei que tinha que me colocar, mesmo que tivesse que fazer essa espécie de confissão e fazer assim porque achava bom, mas não é bem assim. Mas também muitos gays ficaram ofendidos, outros não, mas por ignorância? E falta de compreensão nas coisas. Como se eu fosse homofóbico… Mas foram poucos. A maior parte da imprensa foi respeitosa, a partir dessa coisa respeitosa da Bravo e pronto. Para mim saiu um peso da cabeça.

 

OP – Em Eta mundo bom, uma novela em que você fazia vários personagens remete muito tanto à (peça) Irmã Vap quanto a (novela) Um sonho a mais. Como foi essa experiência?

NANINI – É, foi o Walcyr (Carrasco, autor da novela). O Walcyr teve essa oportunidade desse roteiro, me chamou e falou: “Você vai ver. Você ficou um tempão com um personagem só, agora você vai ver!” (risos) E de fato, eu fiz 26 personagens, fora os dois fixos, os gêmeos (Pancrácio e Pandolfo Martino). E foi divertido porque não fazia novela há muito tempo e vi gerações entrarem e até saírem das tramas da televisão. Não sabia como é que era. E também esse mundo todo dessas máquinas audiovisuais cresceu muito. Ficou cheio de opção e eu, meu Deus do Céu!, como é que vai ser? E aí entrei, foi uma experiência agradável, o personagem era muito bom, Jorge Fernando é um diretor muito legal. O autor fez pra mim, né?, Esses personagens… Foi uma maneira de me despedir legal do Lineu, com vários personagens. E gosto de fazer personagens.

 

OP – Você disse que pessoas ainda lhe chamam de Lineu, mas esse personagem não colou em você. O ator parece mais forte que o personagem.

NANINI – Não, não. Eu gostei muito dele. Eu gosto de viver os personagens, mas não gosto de me transformar neles. Isso não gosto. Porque eu gosto de sentir o sabor dos personagens. O Lineu eu batalhei muito por ele. Porque logo nas primeiras leituras, ele tinha dois caminhos. Ele podia ser ou o engraçadinho ou o que eu fiz. O engraçadinho não concordei.

 

OP – Por quê?

NANINI – Porque ele é um pai de família, não pode ser o engraçadinho. O Lineu, o papel dramatúrgico dele, é meio de campo, porque tem que segurar a credibilidade família, tem que segurar enquanto todo mundo pira. Só uma vez que ele pirou, porque ele comeu aquele bolo de maconha e aí ele pirou (risos). Ele pirava também, mas sem saber, quando ele estava bêbado, não sei o quê, mas ele era o certinho e tal… E as pessoas se reconheciam porque ele levava a família. Esse foi talvez o canal em que mais o público se viu. Então, eu recebia muitos comentários de espectadores. Uns chegavam assim e diziam: “Meu pai é a sua cara!”. Outro falava: “Ah, eu tenho um amigo que é a cara do Lineu!” ou “Tenho um amigo que é o Lineu”. Eu descobri varias existências de Lineus por ai.

 

OP – O Lineu, todo ético, sobreviveria ao Brasil que estamos vivendo?

NANINI – Olha, eu gostaria de saber se ele sobreviveria. Isso é tão violento, né? Quando você sabe que todos no governo, praticamente, estão lá para tirar proveito próprio. Estão criando mecanismos de roubalheira.

 

OP – E sobre o conservadorismo na sociedade brasileira?

NANINI – Eu tenho visto mais. Não sei se é um avanço, mas tenho visto mais. Como também tenho visto um embate ao contrário. Toda essa onda sexual, dos trans, dos gays, mas mais especificamente das mulheres homossexuais e dos homens trans, das mulheres trans, isso tudo é uma reação a essa onda, que é absolutamente cruel. Porque, ué!, se as pessoas que defendem Deus vão contra a criação do próprio Deus, o que é isso? É esquisito, não é? Então, está tendo uma reação a isso. Desagradável, né? No mundo inteiro! O racismo também.

 

OP – Com quem você gostaria de trabalhar no cinema?

NANINI – Não sei. Nunca penso em quem eu quero, quem eu vou, o que será… Deixo acontecer. Nunca pensei no Armando Praça e estou super encantado com ele. Armando é um super diretor, ele me levou para um grupo excelente de profissionais. Puxa! Cada profissional ali, todos eles, os técnicos todos! A produção era de baixo orçamento, mas muito boa. Então, essa experiência me trouxe uma juventude! De estar perto do próprio autor, do diretor, da equipe. Aprendi muita coisa com eles.

 

OP – Você tem medo do esquecimento?

NANINI – Olha, isso é uma contingência. Eu não entrei para essa profissão, lá atrás quando eu era adolescente, para ser notado. Entrei porque gosto de fazer. As pessoas começaram a me reconhecer depois de um tempo, mas eu não tinha vontade… Não faço para isso. Não gosto, inclusive. Não sou muito de ir a festas, entendeu? Não me sinto bem. Não tenho traquejo, me sinto mal. Também eu esqueço de tudo! Adoro beber bastante e esqueço absolutamente tudo. Eu deleto tudo de uma forma tão violenta que fica sendo constrangedor ir a uma festa e não saber o nome de ninguém.

 

OP – Dois personagens, que você fez com o Guel Arraes (diretor), destoam do senso comum, do imaginário a respeito de Marco Nanini. O cangaceiro do Auto da Compadecida e o pistoleiro de Lisbela e o Prisioneiro. Ambos não que não tem nada de tímido nem recatado.

NANINI – Não, não têm. Mas com personagens, estou bem. Agora eu, eu sou uma negação. Uma negação! Eu gosto de personagem.

 

OP – Você gosta mais de estar nos personagens?

NANINI – Não, eu gosto de interpretar o personagem. Aí, não fico tímido. Fico retraído como eu mesmo. Aqui já está uma multidão (apontando para os três repórteres do O POVO). Se chegar mais duas pessoas, vai ser uma multidão, porque tenho crise de pânico. Ai, sou retraído assim, tenho esse problema… Mas como personagem, não! Com o personagem, nossa!, quanto mais eu descubro mais eu gosto. É mais fácil viver personagem porque você manipula ele, na sua vida você nem sempre pode, não é?

 

Perfil

Em 1958, aos dez anos de idade,o pernambucano Marco Antônio Barroso Nanini desembarcou no Rio de Janeiro – então capital do País.Tinha dez anos, quando o pai (Dante Nanini) foi gerenciar o Hotel Regina. O teatro definiu seu destino. É conhecido por atuações memoráveis como o personagem Lineu, em A Grande Família (2001 a 2014),da Globo.Ou por ter ficado 11 anos em cartaz com O Mistério de Irma Vap (e Ney Latorraca). No Cinema, O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro confirmam o vigor cênico

PERGUNTADA LEITORA

Sarah Monteiro , 23, estudante de Psicologia da UFC

 

LEITORA – Como você lida com a finitude?

NANINI – Olha, não há o que lidar, né? Porque ela é certa. Eu também não quero saber o que existe depois da morte? Fica uma especulação… Me sinto comezinho, não me sinto extraordinário, gosto das coisas simples. Sou capaz de ficar o dia inteiro observando aqui (a Praia dos Crush). Gosto de pessoas, de tê-las, de senti-las, por isso que gosto de personagens, são muito diferentes. Eu continuo assim, gosto muito de animal, de plantas. Tenho um sítio, no Rio, que foi uma surpresa o sítio chegar aos 60 anos. Chegou juntamente com o projeto Galvão Gamboa (de arte e social com crianças e idosos).

 

 

 

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