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Dandara. Sobre duas mortes e uma ressurreição

A primeira vez em que Dandara dos Santos morreu o fez em silêncio. O fim, bárbaro, foi invisível, como a vida que levou. No dia 15 de fevereiro do ano que agora acaba, a travesti de 42 anos foi agredida por mais de uma hora com murros, pedradas, pauladas e chutes, e, finalmente, assassinada a tiros, no meio da rua, no bairro Bom Jardim. Apesar do nível de crueldade, o crime não chamou atenção para além de seu entorno, virou mais um número impessoal nas tétricas estatísticas da insegurança no Estado.

Até que, 16 dias depois do primeiro óbito, Dandara morreu novamente. Desta vez, com estardalhaço. A segunda morte se deu quando o vídeo mostrando seu suplício tomou conta das redes sociais, no dia 3 de março. Captado por seus próprios algozes, o registro amador documenta três sessões de tortura a que Dandara foi submetida.

As derradeiras imagens de sua vida a mostram ensanguentada, sem forças para se levantar do chão, implorando para não apanhar mais, enquanto é levada num carrinho de mão para um beco onde seria executada, longe de olhares outros (eletrônicos ou não).

A gravação do show de horrores viralizou e obteve o que a primeira morte de Dandara não conseguiu. Se, em fevereiro, as vielas e veredas do bairro calaram sobre seu corpo, em março a ágora virtual o reclamou, indignada, qual Antígona na clássica tragédia grega a que dá nome.

O martírio da filha de dona Francisca rompeu fronteiras geográficas e sociais e trouxe para a sala de estar da área nobre de Fortaleza a agonia em praça pública a que a periferia assistiu sob o habitual silêncio forçado. A execução de Dandara, exibida em detalhes, despertou um senso de alteridade insuspeitado, uma urgência por justiça, um clamor público.

Nascida, criada e vivida à margem, Dandara subverteu essa ordem. A vida periférica que teve, por sina, na morte a levou ao centro, aos holofotes.

Travesti, prostituta, soropositiva, pedinte, suburbana, miserável, a moça tinha tudo, em tese, para não comover. Mas seu calvário mobilizou milhões mundo afora, revoltou em várias línguas, foi manchete de jornais, pressionou o governador a condenar o crime e exigir apuração. Transbordou.

A invisibilidade a que parecia condenada desde que ajustou a primeira lingerie para valorizar o derrière e se equilibrou nos saltos altos inaugurais sumiu. E foi neste momento que Dandara ressuscitou. E o fez com uma força digna de sua xará histórica, guerreira destemida no Quilombo dos Palmares.

O sacrifício público de Dandara deu novo sentido à vida severina da menina nascida em corpo masculino, que sonhava ser artista de televisão, estrutura franzina, de 50 e poucos quilos distribuídos em 1 metro e 72 centímetros, querida pela vizinhança do Conjunto Ceará, onde morava com a mãe.

Como a personagem Macabéa, do romance A hora da estrela, escrito por Clarice Lispector há 40 anos, Dandara teve no instante de sua morte o redimensionamento de sua existência. As duas, aliás, têm mais em comum do que um primeiro passar de olhos suspeitaria. Ambas são histórias acontecidas em estado de emergência e calamidade pública; têm corpos cariados, e ainda assim, cheios de lascívia; a ambição de ser outros que só a arte permite, a incompetência para a vida, a redenção com a chegada do fim inesperado. “Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um”, segundo diz Clarice no livro.

“Será que foi uma missão que Deus deu para meu filho (Dandara)? Dele ser sacrificado para ter essa repercussão internacional toda e mudar essa situação?”, chorou Francisca Ferreira ao O POVO, no inicio do ano, já enxergando a grandeza trazida pelo sofrimento imposto à sua filha.

Sim, Dandara tornou-se um símbolo de resistência da população LGBT no País. A data de sua primeira morte agora é Dia Estadual de Combate à Transfobia no Ceará. Um projeto de lei que leva seu nome tramita no Congresso Nacional propondo alteração do Código Penal para prever o LGBTcídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio e ainda o tipifica como hediondo.

Dos seus executores, dez já foram capturados e denunciados por homicídio triplamente qualificado por motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima. Eles podem ser condenados de 12 a 30 anos de prisão. Dois seguem foragidos.

Já Dandara sobrevive, feito Fênix, à sua imolação. E esta força de sua persistência acende a esperança de que o martírio tenha a serventia de impedir que a história se repita.

ÉMERSON MARANHÃO

 

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