Blog do Maranhão

Quando Kurosawa encontra Almodóvar  

 

Difícil encontrar um habitante desta Pequena Aldeia que tenha passado a semana incólume à repercussão da ‘Briga da Batatinha’. Primeiro fenômeno viral alencarino deste 2018, a rusga pública entre as turmas de Topazzyio e Yngrid ganhou o mundo, virou meme e foi rapidamente explorada em anúncios publicitários (de gosto duvidoso). Tanto foi dito e compartilhado a respeito da peleja que ficamos ‘cegos de tanto vê-la’ e não nos apercebemos do que ela, na realidade, tem de extraordinário. O episódio é, sim, sui generis. Mas do ponto de vista narrativo e dramático, e não sob o aspecto futriqueiro com que virou notícia.

A olhos atentos, o embate entre os ‘Y’s remete a um roteiro escrito a quatro mãos por dois grandes mestres do cinema: o japonês Akira Kurosawa e o espanhol Pedro Almodóvar. Do primeiro, traz a forma com que foi narrado. Como em Rashomon, marco na obra de Kurosawa, os relatos nos chegam aos pedaços, mostrando pontos de vista conflitantes de três importantes personagens da briga (neste caso , através de áudios no WhatsApp). Ao ouvinte, cabe a função de cruzar as narrativas e tirar suas conclusões. Do segundo, levanta a passionalidade exacerbada como leitmotiv para a ação das protagonistas. Além do óbvio apreço pelo kitsch, explicitado nos nomes, figurinos e diálogos impagáveis das personagens.A junção de tão especiais características talvez explique o apelo da trama e seu sucesso. Uma excelência digna de mestres.

Émerson Maranhão Editor de Conteúdo do Núcleo de Audiovisual

 

 

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