Blog do Maranhão

Um Carnaval movido a pink money (a Cena G desta semana)

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“Eu não quero saber de negócio com bloco de homem, não quero saber de negócio com bloco de mulher, só quero saber de negócio com bloco de viado. Porque só viado é que tem dinheiro nesse Carnaval, viu? Nunca pensei que fosse ver isso”.

A frase, dita por um cambista, foi ouvida pela coluna na feira de abadás ao lado do shopping Barra, em Salvador, principal mercado informal das camisetas que dão acesso aos blocos. E, descontadas as indelicadezas politicamente incorretas, dimensiona um fenômeno no Carnaval da capital baiana. No ano em que a crise tomou conta de grande parte dos blocos, provocando redução na quantidade de foliões e de dias de saída, os blocos voltados ao público GLS simplesmente bombaram, foram um sucesso absoluto.

E aqui, para não se faltar com a verdade, é preciso dizer que de L e S esse blocos tiveram quase nada. Largadinho e Blow Out (ambos puxados por Claudia Leitte) e O Vale (comandado por Alinne Rosa) tiveram público majoritariamente masculino. E gay. Até mesmo o Crocodilo, de Daniela Mercury, que geralmente atrai uma quantidade significativa de mulheres, neste ano teve pelo menos 70% de seus foliões homens (esse índice beira os 90% nos outros três blocos).

A prevalência de homens nestas agremiações acabou gerando tiradas bem-humoradas nos percursos da folia. Houve quem os comparasse a uma versão reloaded do afoxé Filhos de Gandhy, um dos mais tradicionais do Carnaval de Salvador e que desde sua fundação, há 69 anos, só permite que homens desfilem em suas fileiras.

Piadas à parte, o fato é que o chamado “pink money” mostrou toda sua força na folia baiana em 2018 e fez toda a diferença no combalido mercado de abadás. O desabafo do cambista que abre este texto só reflete a imensa procura por estes quatro blocos, enquanto para os outros o encalhe parece ter sido a palavra de ordem.

Mesmo antes da chegada do Carnaval, já estavam esgotados nos canais oficiais de venda os abadás para Crocodilo, Blow Out, Largadinho e O Vale. Este último, aliás, surgiu como um plano B, mais acessível, para atender à demanda do público gay de menor poder aquisitivo (o que não significa dizer que era barato).

O sucesso comercial destes blocos, além de mostrar a força econômica deste segmento de mercado, levou para a avenida milhares de gays proud to be, sem o menor problema em desfilar em agremiações abertamente gays. Muito pelo contrário. Sem falar na azaração descarada (como dizem os baianos) que rolou nos blocos, traduzida em muitos amassos e beijos na boca. Uma coisa linda de se ver. Literalmente! (Sem falar no lacre que foi ver Pabllo Vittar arrastar uma multidão atrás de seu Bloco da Pabllo cheia de cantoras drags e trans!)

 

OUÇA ESSA

“PARA AQUELES QUE TUITAM ME DIZENDO QUE ‘ESPERAM QUE EU FALHE’, EU FALHEI MUITAS VEZES NA MINHA VIDA, MAS APRENDI COM CADA CONTRATEMPO E AGORA SOU UMA VADIA PODEROSA E PRONTA PARA A PISTA”

Adam Rippon, patinador no gelo e primeiro atleta assumidamente homossexual a competir pelos EUA nas Olimpíadas de Inverno, onde já ganhou uma medalha de bronze por equipes.

NOTEENHAS

 

UM ANO DE MARTÍRIO

Há exatamente um ano, no dia 15 de fevereiro de 2017, Dandara dos Santos foi supliciada e assassinada em via pública em Fortaleza. Que sua história seja lembrada e que seu martírio não tenha sido em vão.

 

DANDARAS VIVEM

Por falar em Dandara, a Coordenadoria LGBT do Governo do Estado, em parceria com a Coordenadoria da Diversidade Sexual da Prefeitura de Fortaleza, promove amanhã, dia 16, o ato show Dandaras Vivem. A programação começa às 19 horas, na Praça da Gentilândia, e terá desfile de moda, DJs, performances e show da banda The Dillas (FOTO). A entrada é gratuita.

 

MUITO CLOSE

No sábado, 17, o cineteatro São Luiz exibe o filme Close, premiado documentário dirigido por Rosane Gurgel. A exibição integra a programação de encerramento dos “15 dias de ativismo contra a transfobia”. Após a sessão, haverá debate com as protagonistas e a diretora do filme, a professora Luma Nogueira, da Unilab, e Silvia Cavalleire, da Coordenadoria especial de políticas públicas para as mulheres. A entrada é dois quilos de alimento não perecível ou produtos de higiene pessoal.

 

CARNAVALE

Neste sábado, dia 17, o Dragon Health Club (rua Almirante Jaceguai, 239, na ladeira do Centro Dragão do Mar), promove a festa Carnavale, a partir das 19 horas. No line- up, DJ Lourran Carneiro, performance do gogo dancer Victor Ayres, apresentação do grupo The Crazy e shows de Dmoon, Flávia Fontenelle e Mizzayra Shiva. Hostess: Tatiana Hilux. Ingresso: R$ 45.

 

+ CARNAS

TRAVESTIDAS LÁ E CÁ

Em Fortaleza ou no Rio de Janeiro, as travestidas cearenses puxaram o bloco da diversidade. Pelas bandas de cá, num Aterrinho lotado da melhor mistura fortalezense, o Bloco das Travestidas foi um dos grandes destaques do primeiro dia de folia oficial. Gisele Almodóvar (Silvero Pereira) e Mulher Barbada (Rodrigo Ferrera) lacraram com toda a experiência acumulada de nos Pré-Carnavais.

As gatas já viraram habitué nos palcos cearenses, mas essa foi a estreia das travestidas na programação oficial do Aterrinho. E como é bonito ver o ativismo trans, travesti, transformismo, se impondo em meio ao glitter carnavalesco. De quebra, o show teve homenagem a Ivete Sangalo, que foi mamãe de gêmeos no próprio sábado. Nas ruas, a lindíssima Yasmin Shiran (Diego Salvador) também causou no Iracema Bode Beat, com foto do Mateus Dantas levando ela para a Primeira Página do jornal O POVO ontem.

Nome dos mais comentados do País após a participação em A Força do Querer, Silvero Pereira foi fazer seu nome também na Sapucaí. Aliás, Silvero não: Gisele Almodóvar. A persona do ator cearense foi destaque da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel (FOTO). “Só posso dizer que meu coração explodiu de emoção com a comunidade no raiar do dia e no atravessar da avenida”, escreveu no Instagram. Fica o desejo para que, cada vez mais, a diversidade cearense conquiste o mundo!

CORRESPONDENTES

Como a Cena G circula nacionalmente, tivemos correspondentes em dois dos Carnavais mais importantes do Brasil. O titular da coluna, jornalista Émerson Maranhão, como você vê na matéria ao lado, aproveitou a folia de Salvador, na Bahia. Já o repórter Renato Abê foi testemunha ocular do Carnaval Multicultural do Recife Antigo e de Olinda. E nos palcos de lá também não faltou representatividade. O Evento “Carvalheira na Ladeira” teve como destaque a drag queen Pabllo Vittar – ao lado de nomes como Alceu Valença e Elba Ramalho. Pabllo, aliás, esteve à vontade durante todo o Carnaval e se mostrou a rainha das fantasias. No Recife, fez cosplay de Jessie, personagem do anime Pokémon. Em Salvador, virou Xuxa. Em Belo Horizonte, pintou de Beatrix Kiddo (Kill Bill) e de Lady Gaga. Ufa!

 

Colaborou ANDRÉ BLOC

andrebloc@opovo.com.br

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