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Dois dedos de prosa com Karim Aïnouz

 

Na tarde deste sábado, Aeroporto Central, novo trabalho do cineasta cearense Karim Aïnouz, fez sua estreia mundial na Mostra Panorama, do Festival de Berlim, um dos mais prestigiados eventos cinematográficos do mundo. O documentário acompanha a rotina de dois refugiados sírios, Ibrahim e Qutaiba, abrigados num antigo aeroporto desativado (e que dá nome ao filme), no centro da capital alemã.

O tal aeroporto Tempelhof era uma das “joias da coroa nazista” e foi construído por ordem de Hitler. Há três anos, o local foi transformado em abrigo para receber milhares de refugiados que chegavam à Alemanha. Logo após a exibição do longa para a imprensa internacional, na sexta-feira, Karim conversou com O POVO, por telefone, de Berlim, cidade onde mora. E falou sobre a recepção ao filme e a reação dos seus protagonistas ao se verem documentados.

 

O POVO: Como o Festival de Berlim está recebendo Aeroporto Central?

Karim Aïnouz: Está sendo incrível! O filme foi super bem recebido na sessão para a imprensa, passamos o dia hoje (sexta-feira) dando entrevistas. Há um interesse muito grande pelo filme na Alemanha. As pessoas querem ver porque esse é um lugar onde nenhum alemão chegou, querem entender como consegui acesso a esse lugar, a estas pessoas, a estas histórias.

 

O POVO: Os seus dois protagonistas já assistiram ao filme? Qual foi a reação deles ao se verem na tela grande?

Karim: Sim. Fiz questão de mostrar para eles e de trazê-los para o Festival. Eles acompanharam a sessão da imprensa e estarão amanhã (ontem) na estreia oficial. E foi fantástico! Porque eu passei um ano filmando com eles, acompanhando os passos deles, orientando para que registrassem seu cotidiano onde eu não poderia chegar… Não é um documentário clássico, com depoimentos gravados para a câmera e tal. Então, eles não tinham ideia do que resultaria, não imaginavam que filme sairia deste processo. Por isso, talvez, foram surpreendidos com o que viram na tela, como se viram na tela.

Karim (centro) com dois dos personagens do filme, Ibrahim (esquerda) e Qutaiba

O POVO: Não deixa de ser uma abordagem ousada dar o protagonismo para os refugiados sírios neste momento político e histórico, ainda mais na Europa.

Karim: Sim, e este é o ponto. Acho que dificilmente você encontrará este ponto de vista na mídia hegemônica. Tem muito a ver com o lugar de fala deles, de onde eles possam contar a própria história. E esta é a oportunidade que o filme traz. E também tem uma sensação de empoderamento muito grande, de eles estarem se sentindo como heróis. O que é ótimo, mas me preocupa um pouco também.

 

O POVO: Por que esta preocupação?

Karim: Porque a gente tem que tomar cuidado. Eles hoje estão no centro das atenções, deram mais de 15 entrevistas para veículos de vários países e tal, o filme vai estrear e certamente teremos mais holofotes. Mas o Festival é enorme, são mais de 400 filmes, passando em todas as mostras. A gente sabe que esse interesse não dura para sempre. Amanhã, pode não existir mais. A preocupação, e o cuidado, é para que eles não se impactem quando o interesse, o assédio da imprensa, das pessoas em geral passar. Porque isto faz parte. Mas fico muito feliz pelo fato de eles estarem vivenciando isso. Repito, só isso já vale ter feito o Aeroporto Central.

Por Émerson Maranhão EDITOR DE CONTEÚDO AUDIOVISUAL

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