Blog do Maranhão

O porquê da polêmica sobre “O Mecanismo”

A ARTE É PERIGOSA. Indo e voltando. Tanto corre perigo quem a cria, quanto corre perigo quem a consome. Este risco se manifesta de maneira e intensidade distintas entre um e outro. Mas ele está ali, inerente à condição artística. Talvez por isso mesmo, a arte não comporte ingenuidades em seu manejo.A quem ousa fazer dela mister exige aceitação absoluta da ameaça que lhe constitue em essência.

A reação de José Padilha, cineasta responsável pela série O Mecanismo, à polêmica que se deu em torno de seu mais recente trabalho mostra que ele finge desconhecer tais riscos. E o verbo é este porque é impossível que ele ignorasse o potencial de reação ao que propõe. Ainda mais, pelas intenções que traz em sua série. Sim, intenções. Um cineasta como Padilha não faz um trabalho sem saber exatamente o que quer contar (e causar).

Eis o X da questão. Apesar das cortinas de fumaça que se lançaram ao seu redor, o motriz do debate são as intenções da série, que, sim, existem e são legítimas. E é por elas que Padilha fez certas escolhas narrativas, tão legítimas quanto. O que falta é assumi-las.

É em torno das intenções que esperneiam os incomodados com as “adaptações” do real para o ficcional. E é em torno das intenções que regozijam (para usar um termo recém-ressuscitado) os que querem banir o PT do mapa.

Não que seja condenável dotar de intenções uma série de TV. Muito pelo contrário. É mérito dos que conseguem transcender o mero entretenimento. Mas assim como é preciso conhecer o risco é fundamental bancar as consequências.

 

Émerson Maranhão

EDITOR DE CONTEÚDO AUDIOVISUAL

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