Blog do Maranhão

‘Segundo Sol’ vai tropeçar no tempo. De novo!

Depois de usar uma secretaria eletrônica de telefone fixo para revelar o romance entre Maura e Selma, o autor vai recorrer a uma coleção de DVDs pornôs e revistas de nudez para anunciar a homossexualidade de um personagem

João Emanuel Carneiro, o autor de “Segundo Sol”

João Emanuel Carneiro, autor da novela Segundo Sol (TV Globo), é de outros tempos, não há como negar. Com apenas 48 anos de idade, é o mais jovem dramaturgo a assinar tramas na faixa nobre da emissora, mas ainda assim sua recorrência a recursos anacrônicos em novelas contemporâneas está se tornando indisfarçável. No capítulo exibido na terça-feira passada (3), o dramaturgo valeu-se de uma secretária eletrônica de telefone fixo para que a cozinheira Nice (Kelzy Ecard) descobrisse o romance secreto entre sua filha Maura (Nanda Costa) e a vizinha Selma (Carol Fazu).

Isso em tempos da popularização de smartphones pré-pagos, dos áudios de WhatsApp e das mensagens de texto. Ignorando o básico dos recursos tecnológicos que cercariam o casal de moças, João Emanuel optou por um recado meloso deixado na tal secretaria, aparelho raríssimo nos lares de hoje em dia. Ainda mais de classe baixa, como é o caso em questão. Convenhamos que ter um celular de recarga seria muito mais condizente com a realidade financeira de Selma.

Remy (Vladimir Brichta) descobrirá que Galdino é gay

Mas não é só. Outro grande anacronismo, como solução dramática para fazer a trama avançar, já se anuncia para os próximos capítulos da novela. De acordo com o site oficial do folhetim eletrônico, em breve o golpista Remy (Vladimir Brichta) descobrirá um grande segredo de Galdino (Narcival Rubens).

Desconfiado que o ex-torturador que ganha a vida como capanga da cafetina Laureta (Adriana Esteves) está sendo chantageado por uma das garotas do bordel, Remy entrará sorrateiramente em seu quarto e dará uma geral em busca de provas. Até que, ao levantar o colchão, encontrará DVDs pornôs gays e revistas de nudez masculina.

“Galdino… Quem diria? O rei do cangaço dorme no armário?!. Quer dizer que o pitbull é Lassie?!”, reagirá ironicamente Remy ao ser surpreendido por Galdino com os DVDs e revistas na mão.

Galdino (Narcival Rubens): um gay no armário, consumidor de pornografia analógica

E está aí, mais uma vez, o problema de verossimilhança temporal. Quem, por Deus, em pleno 2018, ainda recorre a DVDs e revistas pornôs debaixo do colchão? Como é que o capanga de um bordel de garotos e garotas, que anunciam seus serviços em um site, desconhece o XVideos? O SoloBoys? O PornoTube? Não recebe vídeos de sexo explícito pelo WhatsApp? Ninguém lhe manda nudes? Não tem conta no Scruff nem no Grind?  E é sério que ele guarda uma coleção de G Magazine, revista que deixou de circular há cinco anos?

Assim fica difícil embarcar na história. Não que antes estivesse fácil. A fragilidade da trama de Segundo Sol é gritante, assim como o são as muitas “licenças poéticas” a que o autor recorreu. O que é uma pena. João Emanuel Carneiro é dos mais talentosos dramaturgos brasileiros, autor de um dos maiores clássicos de nossa teledramaturgia, Avenida Brasil (2012). E realmente é de se lamentar assistir a um trabalho seu de brilho menor. Aguardemos os próximos capítulos. Ou melhor, esperemos que os capítulos vindouros sejam de fato próximos e não impregnados do século passado.

 

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