Blog do Maranhão

Uma série traduzida em hipérboles

Onde nascem os fortes termina hoje, com o mérito de oferecer na grade televisiva aberta excelência dramatúrgica, deslumbre visual, direção brilhante e uma atuação inequívoca do elenco

Na noite de hoje, quando for exibido o último dos 53 episódios da supersérie Onde nascem os fortes (TV Globo), um novo capítulo na história da teledramaturgia brasileira terá sido escrito. A afirmação é pretensiosa, mas se sustenta em argumentos sólidos. Com direção artística de José Luiz Villamarim e escrita por George Moura e Sérgio Goldenberg, Onde nascem os fortes é um caso raro de conjunção de acertos. E o que é mais surpreendente, resultado de uma aposta ousadíssima.

A história de uma noite que não terminou e que mudou a vida de todas as pessoas em seu entorno nunca foi de apelo fácil. Mas ainda assim conquistou o público e chega ao fim muito bem sucedida, com excelentes performances de audiência e de crítica.

Por “não ter apelo fácil” entenda-se a escolha dos roteiristas e diretores pela sofisticação e, por que não dizer?,  respeito à inteligência do público. Sim, tanto o texto primoroso de Moura e Goldenberg quanto a direção impecável de Villamarim partem do pressuposto que do outro lado da tela há alguém capaz de fruir na sutileza e acompanhar uma narrativa onde o por dizer prevalece sobre o dito.

Diferentemente de seus pares no folhetim eletrônico clássico, nada foi “gritado” em Onde nascem os fortes, nada foi esfregado à exaustão no rosto do espectador. Isso tanto em termos de dramaturgia, quanto na direção e na atuação irretocável de seu elenco.

Para começo de conversa, em nenhum momento o texto da supersérie fez concessões ao público, curvou-se às vontades do espectador. Não fosse assim, talvez Nonato (Marco Pigossi) aparecesse vivo, quem sabe preso numa caverna arqueológica; Madalena (Mariana Molina) também teria sobrevivido e reencontraria a filha; Joana (Maeve Jinkings) viveria feliz para sempre ao lado de Samir (Irandhir Santos), ou Rosinete (Débora Bloch) arranjaria um namorado em vez de ser vítima de golpistas na sua saga em busca por sexo fortuito.

Pelo contrário. A escrita de Moura e Goldenberg neste trabalho caracterizou-se pelas seguidas frustrações das expectativas do que seria o senso comum. Foram várias as vezes em que os autores acenaram com a possibilidade de redenção para, na sequência, dar uma rasteira nos que acreditaram na chance de final feliz a curto prazo.

E esta é apenas umas das muitas qualidades de seu trabalho. Outra, a meu ver a principal, é a capacidade de desdobrar a trama inicial em várias camadas, em diversas situações dramáticas que, a um só tempo, retroalimentam-se, apresentam novas possibilidades a ser exploradas, mas também impulsionam os desdobramentos do ponto de partida da história.

Jesuíta Barbosa é Shakira do Sertão em “Onde Nascem os Fortes”

Por óbvio, seria impossível arrastar a busca por Nonato como principal sustentáculo da trama ao longo de 53 episódios. Tanto é que Cássia (Patrícia Pillar) encontrou o corpo do filho morto mais de um mês antes do capítulo final. No entanto, a dupla de autores proporcionou grandes viradas no enredo, que surpreenderam o público e mantiveram a tensão dramática e a atenção no que ainda estaria por vir.

Uma das principais e mais audaciosas delas foi a revelação de que Cássia não é a mãe biológica de Nonato e Maria (Alice Wegman), desnorteando completamente o espectador, que acreditava estar acompanhando a saga de uma “mãe coragem” em busca dos filhos. Solução narrativa de quem domina seu oficio e banca correr riscos.

Não à toa, tantas reviravoltas depois, só será revelado no capítulo de hoje o que realmente aconteceu na noite fatídica em que Pedro Gouveia (Alexandre Nero) surrou aquele que seria seu próprio filho, depois de ambos disputarem a atenção de uma mulher.

Na carpintaria dramatúrgica de Onde nascem os fortes é possível encontrar uma infinidade de referências. De Sófocles a Shakespeare, passando por Euclides da Cunha e Nelson Rodrigues. Universos aparentemente incomunicáveis reunidos com maestria na escrita de Moura e Goldenberg. A ponto do resultado, mesmo bebendo na fonte de tantos clássicos, retratar com fidelidade, a olhos de quem quer ver, muito da realidade brasileira atual.

Tão merecedora de aplausos quanto a dramaturgia de Onde nascem os fortes é a direção da série. Villamarim, literalmente, brilhou em sua escolha de como contar esta história. Sem correr o risco de faltar com a verdade, Onde nascem os fortes é cinema mais que televisão. Não apenas pelo modo como foi realizado, mas pelo resultado impresso na tela, pelo recorte do olhar de seu diretor, pela linguagem imagética adotada, por sua construção narrativa.

Da mesma maneira que na dramaturgia, a direção se arriscou muito ao optar por não facilitar a vida do espectador. Nada de close-up gritante nos momentos de grande intensidade. Antes o inverso, câmera distante, sem explorar o rosto dos atores, quase escondido nas sombras, como se viu na conversa de conciliação entre Pedro e Rosinete, exibida no capítulo de sexta-feira passada.

Cássia (Patrícia Pillar) em “Onde Nascem os Fortes”

Foram muitas as sequências como esta, onde o óbvio foi substituído pelo requinte, para delírio do público exigente. Esta opção de Villamarim pelo primor está já na primeira cena da série, quando Maria sofre um tombo de bicicleta, numa metáfora clara da guinada que terá sua vida na sequência. E como não citar a emocionante releitura da Pietà de Michelangelo na sequência em que Cássia abraça o corpo desenterrado de Nonato?

Por falar em emocionante, não existe adjetivo mais apropriado para definir as atuações do elenco da supersérie. Dos protagonistas aos coadjuvantes, passando pelas participações especiais, o que se viu foi uma orquestra afinadíssima onde ninguém saiu do tom, em momento nenhum.

Há que se registrar o desempenho espetacular de Jesuíta Barbosa com o desafio de dar vida à dupla Ramirinho/Shakira do Sertão, o papel que mais exigiu de seu talento na TV até agora; a força de Alice Wegman, que conseguiu imprimir em sua Maria uma energia de raiva absolutamente crível, assim como Lee Taylor o fez com seu Simplício; a delicadeza com que José Dumont compôs seu Tião das Cacimbas; a dubiedade que Maeve Jenkings deu à sua Joana; a construção de Aldina que deixou Camila Márdila irreconhecível; o furacão que é Enrique Diaz, com sua interpretação inesquecível do cínico Plínio, a melhor personagem da série, arrisco apontar; e chover no molhado com os elogios às atuações sensacionais de Patrícia Pillar, Débora Bloch, Alexandre Nero, Fábio Assunção e Irandhir Santos. Sem falar no cearense Demick Lopes, que se garantiu em sua primeira grande oportunidade na televisão.

Onde nascem os fortes certa e merecidamente deixará uma legião de saudosos. Mas termina hoje mostrando que há, sim, espaço para o biscoito fino na grade da televisão aberta brasileira.

 

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