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A mais sofisticada das vilãs

Não foram poucas as vezes em que a atriz Beatriz Segall reclamou publicamente de sua carreira ter sido marcada pela interpretação de personagens ricas, sofisticadas e cultas. Mais do que de vilãs. “Posso até fazer papel de boazinha. O público só não recebe bem quando faço papel de pobre na TV, eles não aceitam”, desabafava, sempre aos risos, em entrevistas.

De fato, é exercício difícil imaginar a eterna Odete Roitman de bobs e lenço amarrado na cabeça, lavando uma trouxa de roupa suja num tanque no quintal. Beatriz Segall, que morreu na tarde desta quarta-feira (5), aos 92 anos, conseguiu como poucas estrelas imprimir elegância e nobreza atávicas à sua galeria de personagens.

Ainda que sua trajetória seja indissociável da pérfida executiva da Companhia Aérea TCA, cujo assassinato parou o Brasil na véspera do Natal de 1988, em Vale Tudo, Beatriz tem outras personagens deliciosas em seu portfólio.

Sem dúvida, um dos grandes destaques é a organizadora de eventos Lourdes Mesquita, de Água Viva. Escrita por Gilberto Braga e Manoel Carlos, e exibida pela TV Globo em 1980, a trama mudou o status das vilãs na teledramaturgia brasileira e tinha falas sensacionais pronunciadas pela megera.

Numa delas, que cito de cabeça, para lisonjear uma socialite que encontra em uma festa, Lourdes compara a elegância da convidada a de uma personagem do cineasta Luchino Visconti. Como, então, não ficar marcada no imaginário nacional como culta e sofisticada?

Mas voltemos à sua vilã master, pela qual será eternamente lembrada. Odete Roitman, em Vale Tudo, é interpretada com tamanha maestria que é impossível não imaginar que todos as incorreções políticas que pronuncia não saiam de sua mente. Beatriz Segall faz uma Odete com tamanha naturalidade que odiá-la é compulsório, ao mesmo tempo em que não há como ficar imune a seu encanto.

A trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, por sinal, está sendo reprisada pelo Canal Viva e merece muito ser revista. Mantém-se atualíssima mesmo 30 anos depois de sua estreia e com uma sofisticação de narrativa, atuação e texto dignos de sua vilã.

por  Émerson Maranhão

 

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