Blog do Maranhão

Falta muito para uma catarse

De tanto transbordarem em significados, as imagens do incêndio que destruiu o Museu Nacional perderam verossimilhança. Por mais que saibamos de sua infeliz autenticidade, de sua verdade histórica e trágica, elas parecem esvaziadas de plausibilidade. Remetem a uma cena de ficção, em que um cineasta épico recorre a mais óbvia das metáforas visuais para traduzir os dias por que passa um País devastado.

Sim, as chamas que deixaram prejuízo incalculável se tornaram a mais patente representação dos tempos que vivemos neste País tropical, outrora abençoado por Deus. Toda a desesperança que parecemos carregar como sina está ali, transmutada nas cinzas do seu acervo. Todo o desalento que se impõe como guia de nossos passos também está lá, convertido nos escombros do prédio histórico.

Mas esta grande metáfora em que se tornou o incêndio não remete apenas a uma codificação cinematográfica. A carga dramática destas imagens (e suas implicações reais) nada deixa a dever às mais desesperadas tragédias gregas. Está à altura da fúria ensandecida de uma Medéia, da dor lancinante de um Prometeu, da angústia motriz de um Édipo tentando fugir de seu próprio destino, enquanto o cumpre inexoravelmente.

O que nos falta para emparelhar com as grandes obras de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes é a catarse redentora ao fim do espetáculo. Ainda estamos muito longe da purificação da plateia através do sofrimento dos nobres, deuses e heróis, que Aristóteles tão bem definiu. Na verdade, nós não somos a plateia, este é o ponto.

Ainda que desprovidos de nobreza, divindade ou heroísmo, somos nós que estamos no centro do palco. Mas nosso sofrimento não está purgando a culpa nem a dor de ninguém. Muito menos a nossa.

Falta-nos uma Antígona que se apiede de nosso infortúnio. Enquanto isso, apodrecemos em praça pública, e nossa alma vaga eternamente sem destino, com o mesmo castigo que Creonte condenava em seu reino aqueles que lutavam contra a própria pátria.

E vemos a nós mesmos e nossa tétrica condição refletidos nas labaredas de um incêndio devastador e há muito anunciado.

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