Blog do Maranhão

Uma nação à flor da pele

Anda tão beligerante a natureza do brasileiro que qualquer sinal emitido pelo que seja considerado o “outro lado” é lido como provocação inequívoca. A semana que passou foi pródiga em situações do gênero. A começar pela prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que, ao estabelecer questões a partir de temas como o feminismo, o movimento negro, as fakes news e o dialeto usado por travestis, provocou polêmica. E, a um só tempo, foi alvo de desaforos e de elogios. Reflexo de um País que segue esgarçado ao extremo.

Mas este caso não é único. No programa Amor & Sexo (TV Globo), a apresentadora Fernanda Lima fez um duro discurso contra o conservadorismo. A reação veio a galope. O cantor sertanejo Eduardo Costa correu às redes sociais a espalhar xingamentos e ameaças contra Fernanda, que teria tido a ousadia de manifestar estas ideias mesmo após a vitória do conservadorismo nas últimas eleições.

Nas palavras de Costa talvez esteja a chave para compreender este momento. Vivemos uma guerra pelo domínio da narrativa destes dias. A chegada da extrema direita ao poder passou a impressão a seus seguidores que o liberalismo nos costumes seria sepultado por decreto. Da mesma maneira que aos liberais a vitória de Bolsonaro & cia representou a derrocada da civilização.

Como este embate apenas se anuncia, que nos preparemos. Os nervos expostos da nação são a mais visível ferida desta guerra, que inadmite a existência do outro. E tem por leitmotiv a hegemonia do seu discurso imposta sobre o silêncio dos discordantes.

Émerson Maranhão

Jornalista do O POVO

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