Blog do Maranhão

O Dragão do Mar, quem diria, acabou na Berlinale

 Formado pelo Instituto Dragão do Mar, Armando Praça representa nova geração de cineastas cearenses que chega ao circuito internacional

Armando Praça, o diretor e roteirista de Greta, que estreia hoje no 69º Festival de Berlim, é uma cria do finado Instituto Dragão do Mar de Arte e da Indústria Audiovisual (IDM). Lá ele passou pelos colégios de Dramaturgia e de Realização em Cinema e Televisão, experiência determinante em sua vida, para além de questões profissionais, conforme revelou a esse repórter em entrevista para o livro Cinema Falado (Editora Dummar, 2018).

A seleção de Greta, seu longa de estreia, para a prestigiadíssima mostra Panorama, na Berlinale, é também um marco da chegada de uma nova geração de cineastas cearenses ao principal circuito cinematográfico internacional.

Justamente, a geração formada pelo IDM, que, numa perspectiva histórica, sucede o grupo de cineastas que deixaram o Ceará para estudar fora, numa época em que o estado carecia de uma escola de cinema. Karim Aïnouz (Estados Unidos), Wolney Oliveira (Cuba), Roberta Marques (Holanda) e Márcio Câmara (EUA) são integrantes desta geração formada em outros países.

Marco Nanini e Démick Lopes em cena de Greta
Marco Nanini e Démick Lopes em cena de Greta

Criado na gestão de Paulo Linhares na Secretaria de Cultura do Ceará, em 1996, o Instituto foi uma escola de formação em cinema, dramaturgia, dança, design e teatro. Sobreviveu até 2003, quando teve suas atividades encerradas pela então secretária de Cultura Cláudia Leitão.

Centro de excelência e referência nacional em ensino de artes, o IDM atraiu estudantes de todo o Brasil e até mesmo alunos de outros países. Assim como também tinha em seu corpo docente grandes nomes nacionais e internacionais. Passaram pelo colégio de Realização Audiovisual, por exemplo, os cineastas Ruy Guerra e Beto Brant, o fotógrafo cubano Raul Perez Ureta, o pesquisador acadêmico José Gatti, a roteirista Tetê Smith e a produtora e diretora Isabela Cribari, sem falar nos cineastas Maurice Capovilla e Orlando Senna, que comandaram o Instituto nos primeiros anos.

Não à toa, o filme de estreia de Armando, o curta-metragem Parque de Diversões (2002), foi vencedor do primeiro Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo, edital que nasceu no IDM e lá foi mantido até que a escola fechasse. Foi esse Prêmio que deu origem ao atual Edital Ceará de Cinema e Vídeo promovido para Secretaria de Cultura.

Além de Armando Praça, são crias do Instituto Dragão do Mar, e contemporâneos de geração, os cineastas Heraldo Cavalcanti (A Casa das Horas), Karla Holanda (Kátia), Eric Laurence (Uma passagem para Mário), Michelline Helena (Do que se faz de conta), Paulo Amoreira (Até que AMORte não separe), e Neil Armstrong (Astrobaldo), entre outros.

“Greta é um filme sobre solidão, que é uma questão que atravessa todos nós”

De Berlim, onde apresenta hoje seu filme Greta na mostra Panorama, o cineasta Armando Praça conversou com exclusividade com O POVO. Confira os principais trechos da entrevista.

O POVO – Qual a expectativa de exibir Greta pela primeira vez? Ainda mais em um festival do porte da Berlinale?

Armando Praça – Eu não consigo nem dimensionar muito o que é essa expectativa. É claro que a gente trabalha, pesquisa, e estuda para chegar num grande festival, para lançar o filme da melhor maneira possível, mas para mim é muito novo tudo isso. E é muito bom! Mas a despeito disso, que seria bom para qualquer pessoa, para qualquer filme, ser lançado na Berlinale, particularmente, o que mais está me deixando curioso, me provocando expectativa, na verdade, é ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre o filme, sabe? É redescobrir o filme a partir do olhar das pessoas daqui, que são muito cinéfilas. É o maior evento cultural da Alemanha. Um festival muito importante, histórico, emblemático da cidade. Então, de fato, tem um público muito especial nesse sentido. E eu quero poder entender um pouco mais o meu próprio filme a partir do olhar deles. A minha expectativa maior é nesse sentido. É receber o filme de volta, sabe? Entender o que eles estão sentindo, o que funciona e o que não funciona, o que comunica e o que é que não comunica. Coisas que provavelmente nem estão ao meu alcance. Acredito que eu vou ouvir coisas que nunca nem sequer imaginei sobre o filme. Então, eu estou muito curioso sobre isso.

OP – Como o filme dialoga com o momento por que passa o País?

Armando – É muito curioso isso. Este projeto, até ele se realizar, passaram-se dez anos. E o País, evidentemente, mudou drasticamente durante estes dez anos. O filme nunca pretendeu, e ainda não pretende, ser um filme que levante ou defenda uma causa específica. O filme não é político dessa maneira. Eu acho que o filme é político num momento em que ele coloca como protagonista uma pessoa de 70 anos de idade, que pertence à comunidade LGBTQ . Nesse aspecto ele é político. Ele tira um personagem que está muito à margem, muito na sombra, e o traz para o primeiro plano. Nesse sentido ele é político, mas eu não acho que ele vá muito além disso. No entanto, nesse momento atual do País, com os membros dessa comunidade específica sofrendo ameaças concretas em relação a perdas de direito, à sua própria segurança, ameaças em relação à sua própria existência – vide o caso do (deputado federal) Jean Wyllys, que teve que se auto-exilar -, eu acho que o filme não pode se negar à responsabilidade. Então, ele nunca pretendeu ser exatamente um filme político, mas no momento em que a gente passa a viver essa realidade no Brasil, e o filme tem um representante dessa comunidade como protagonista, eu não posso jamais me furtar a responsabilidade de dar visibilidade a esse personagem e a esse público e chamar atenção para o que está acontecendo no País. Então, eu acho que ele não se relaciona diretamente (com o momento por que passa o País), mas indiretamente sim.

OP – Na sua opinião, o quê, em Greta, vai tocar as pessoas?

Armando – Eu acho que Greta é um filme sobre solidão. Se eu tivesse que eleger uma única palavra para dizer o tema que possa designar o filme eu acho que seria “solidão”. Claro que a solidão a partir da perspectiva de um homem gay de 70 anos de idade. Mas ainda assim é a solidão. E esse é um sentimento que atravessa qualquer pessoa. É um sentimento da nossa experiência existencial. A gente pode viver muitas relações, ter muitos amigos, mas a experiência humana é sempre uma experiência solitária. Então, o filme é sobre isso, a partir dessa perspectiva, e acho que ele pode tocar e se comunicar com as pessoas a partir desta questão, que é uma questão que atravessa todos nós.

 

 

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