Blog do Maranhão

Pode ser a gota d’água

HÁ IMAGENS que falam mais que mil palavras, é sabido. A fotografia da então diretora da Vogue, Donata Meirelles, comemorando seu meio século de vida, sentada em uma cadeira “Sinhá”, cercada por negras, em pé, caracterizadas como “baianas”, é uma delas. Muitos foram os que ali enxergaram (e se horrorizaram com) uma representação do Brasil Colônia e escravocrata. Mais que isso, viram o enaltecimento da superioridade da senhora de escravos, ante suas mucamas. Para Donata e os seus, um grande engano. Tratava-se, na verdade, de uma referência ao Candomblé. E a cadeira era de uma mãe de santo.

Argumentos insuficientes para convencer a turba que se indignou nas redes sociais. Condenada pelo tribunal virtual, Donata pediu desculpas. Não bastou. E não por questões humanitárias. “É a economia, estúpido!”, explicaria James Carville, o famoso assessor de Bill Clinton. O escândalo tornou nocivo qualquer vínculo à Vogue. Patrocinadores do Baile de Carnaval da revista, principal evento anual da publicação, ameaçaram sair em debandada. Donata pediu demissão. O Baile, que ocorreria no próximo dia 21, foi adiado. Passado o furdunço, o caso merece uma reflexão.

A sanha dita conservadora que varreu o País nos últimos meses deixou a impressão que todos os pudores civilizatórios foram abandonados. Que vivemos, descaradamente, tempos em que o desrespeito e o tripúdio da diferença tornaram-se um novo credo.

Como se estivéssemos na realidade distópica antecipada por Caetano Veloso nos versos da canção O Estrangeiro, há 30 anos: “É chegada a hora da reeducação de alguém. O certo é louco tomar eletrochoque. O certo é saber que o certo é certo. O macho adulto branco sempre no comando. E o resto é o resto, o sexo é o corte, o sexo. Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita. Riscar os índios, nada esperar dos pretos”.

Os que se fiaram na chegada desta “Nova Velha Era” subestimaram a capacidade de reação dos que, aparentemente, tiveram a derrota como sina. Por óbvio, o País segue cindido. O “caso Donata” explicita isso.

E aos que ignoram a 3ª Lei de Newton, lembro de um dos mais emocionantes trechos do Monólogo do Veneno, do clássico Gota D’Água (1975), de Chico Buarque e Paulo Pontes.:

“Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta. Até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui… Fui recuando, recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca. Quando eles virem invertida a correnteza, quero ver se eles resistem à surpresa, e quero saber como que eles reagem à ressaca”.

(E aproveito para homenagear a diva Bibi Ferreira, dona de uma interpretação única desse Monólogo, como você pode conferir no vídeo abaixo, e que nos deixou na semana que passou)

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