Blog do Maranhão

“Destruímos hoje o que podia ser depois”

Débora e José formavam um casal ideal, daqueles de anúncio de margarina. Bem-sucedidos, bonitos e pais de um bebê, que ainda não chegou ao primeiro aniversário. Pareciam destinados à felicidade. A vida em cor de rosa, no entanto, desbotou ao anunciarem: “Tudo acabado. Entre nós já não há mais nada”.

Como em qualquer folhetim, não poderia ser do nada a repentina mudança. E Marina, uma colega de repartição de José, foi logo apontada como o pivô da separação.

Dez anos mais nova que Débora, mais rica – e ruiva! Haveria de ser ela a destruidora de lares. E não adiantaram as negativas da moça, que garantia ser fiel e amar seu marido. Amigas se afastaram, até uma madrinha de seu casamento lhe deu as costas. E a maledicência fez-se companhia. “Mulher quando perde a vergonha e o respeito não tem mais jeito”.

José assumiu o erro. Sem, no entanto, revelar o alvo de seu desejo. Ainda que admitindo a traição, jurou que ela não se concretizara. E, ajoelhado, implorou perdão. “Meu amor, ninguém seria mais feliz que eu se tu voltasses a gostar de mim”.

O fim desta novela rodrigueana ainda está em aberto. Mas seu desenrolar é acompanhado com avidez. Diferentemente das tramas folhetinescas, aqui não é uma ficção. Por certo o leitor sabe do que se trata.

O caso dominou a pauta da semana. E o furacão em seu entorno revela mais dos espectadores que dos protagonistas. A começar pelo machismo em grau máximo e pelo pseudomoralismo manifestado por anônimos e famosos. Culpar a suposta ‘outra’ pelo fim de qualquer relacionamento, admitamos, além de anacrônico, ainda que comum, é dos atos mais perversos.

Em segundo lugar, em tempos de espetacularização da vida nas redes sociais, mostra como a fronteira entre o público e o privado está esgarçada. O que permite que os milhões de seguidores dos envolvidos sintam-se no direito de julgar seus atos. A internet, quem diria, virou um tribunal torquemadesco. “Acreditem, é muito fácil julgar a infelicidade alheia quando a casa não é nossa”.

P.S. José Loreto começou seu pedido de perdão no Instagram com a frase “Errei sim, manchei o teu nome”. O verso pertence à canção Errei sim, um dos marcos do embate musical entre Dalva de Oliveira e seu ex-marido Herivelto Martins na década de 1950. Durante dois anos, eles trocaram farpas públicas através de canções. Ainda que inconsciente, sete décadas depois, a citação estabelece uma ponte entre as duas separações midiáticas. Todos os trechos em aspas deste artigo também são versos deste repertório.

Émerson Maranhão é jornalista do O POVO

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