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Massacre de Suzano – E se fosse meu amigo?

Além de todas as razões óbvias, o massacre de Suzano (SP) incomoda por revelar que o perigo pode não estar no ‘outro’ e sim em um dos que consideramos ‘nós’. Aperreia o juízo com a questão: e se quem estuda com você fosse o responsável pela matança?

Não seria. De pronto esta é a resposta que salta. Inimaginável supor que aquele que senta ao lado na sala de aula, que partilha uma conversa fiada no intervalo, com quem até, vá saber, já se trocou olhares furtivos, seja um assassino capaz de entrar atirando a esmo na escola e matar quase uma dezena de seus pares.

A existência do mal é inequívoca, não se duvida. Ainda mais depois de um massacre como o que ocorreu em Suzano (SP). Mas não é razoável que ele esteja tão próximo, que se avizinhe tanto do cotidiano, que partilhe dos mesmos círculos sociais e do que convencionamos chamar de normalidade.

“Não consigo ver as pessoas que eu convivi durante anos tomando uma atitude dessas”, afiança Laura Gonçalves, 18, que acaba de ingressar na Universidade Federal do Ceará (UFC) para se graduar em Química.

“De jeito nenhum! Não consigo ver isso acontecer. Não consigo nem imaginar”, faz coro Carol Lustosa, 15, que cursa o segundo ano do Ensino Médio no Colégio Antares. “Na minha escola todo mundo é muito companheiro, todos se preocupam uns com os outros”, reforça.

Tanto uma quanto a outra vislumbram no bullying uma possibilidade de explicação. Mas nunca uma justificativa. “Eu não consigo entender, saber a motivação. Óbvio que eles devem ter sofrido bullying. Mas, mesmo com o que eu sofri na escola, quando mais nova, nunca cogitei uma coisa dessas”, indigna-se Laura.

A possibilidade de ter um colega responsável por uma carnificina aumenta a repulsa de Enryco Souza, 10, aluno do 5º ano do Ensino Fundamental da Escola Irmã Elisabeth Silveira. “Eu ficaria ainda mais indignado se um deles fosse alguém que conheço, porque foi muita covardia. E nem venha dizer que é por causa do bullying, porque eu já sofri bullying e não sou exatamente desse jeito, entendeu?”.

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Não deixa de ser curioso que os tantos que rejeitam a chance da proximidade com o assassino em potencial sejam os mesmos que afirmam ter passado por processos de coações reiteradas. A um só tempo, demonstram uma intimidade com o mal em si, por terem sido vítimas dele, mas recusam a sua iminência.

Esta certeza de distanciamento do que é nocivo em sua essência não é um padrão. Os que dela não partilham recorrem à imprevisibilidade do coração e mente alheios para justificar esta perspectiva.

É o caso de Lucas Lustosa, 24, estudante de Publicidade da Universidade de Fortaleza (Unifor). “Quando eu soube do massacre, imaginei que poderia ter acontecido comigo. Sabe por quê? Eu já tive um colega de classe que, depois que terminaram as aulas, foi preso por ter sequestrado uma pessoa. O cara passou o ano inteiro com a gente, na mesma sala, e era um sequestrador! Nunca dá para a gente saber o que passa na mente das pessoas”.

Maria Beatriz Pereira, 13, aluna da sétima série da escola José Assis de Oliveira, vai além. Ela não só acha possível como provável ter um colega capaz de atrocidade do tipo. “Tem muita gente na minha sala que tem coragem de fazer essas coisas. Eu sei pelo jeito de eles falarem, pela maneira como se comportam. Tem muita gente ruim no mundo”, afirma. “Isso (o massacre) foi muito errado. Quando eu soube, fiquei com muito medo de acontecer na minha escola, de matarem meu irmão (de 7 anos), de me matarem”.

E se um colega lhe revelasse que está prestes a cometer uma chacina? “Eu ia tentar conversar ao máximo para mudar dessa ideia”, diz Laura. “Eu tentaria fazer ele explicar para mim o porquê e pegar o máximo de informações possíveis para impedir”, afirma Lucas. “Não sei, eu acho que eu ficaria muito assustada”, pontua Beatriz. “Essa pergunta é bem complicada. Eu acho que eu fugiria. Realmente eu não sei”, admite Carol.

Émerson Maranhão

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