Blog do Maranhão

A recusa de Francisco

Francisco, o papa, mais uma vez, disse não. E seus nãos, como é sabido, têm capacidade reverbatória extraordinária. Porque, na verdade, os nãos de Francisco recusam-se a findar em si. Mais que a negação estritamente semântica, sinalizam afirmativamente potenciais mensagens para seu rebanho e para o Vaticano.

Na semana que passou, Francisco recusou o beija-mão de um grupo de fiéis, após uma missa na cidade italiana de Loreto. As imagens do papa retirando a mão quando algumas pessoas tentam beijar o anel do pescador, símbolo do pontificado, correram o mundo, viralizaram em redes sociais e incomodaram muito a ala conservadora da Igreja (que nutre simpatia mínima pelo argentino, digamos assim).

E nem adiantou o diretor do gabinete de imprensa do Vaticano, Alessandro Gisotti, correr para explicar que a recusa se dera por razões de higiene. “O papa me disse que quis evitar a disseminação de germes entre as pessoas que faziam fila”, assegurou. Para bom entendedor, meia genuflexão basta.

Vaticanistas são unânimes na leitura de que a recusa do baciamano, um antigo ritual de reverência do Catolicismo, faz parte da estratégia de Francisco de “desempoderar” a si próprio, e ainda a cardeais e bispos, diminuindo a distância entre o clero e os súditos. Daí a reação das alas conservadoras, que o acusam de desvirtuar os dogmas da tradição católica.

Mais que uma mera questão de tradição ou não, a recusa de Francisco indica que o papa está disposto a encarar seu rebanho na mesma altura, e não de cima para baixo, como costumavam fazer os que o antecederam na Cátedra de Pedro (e os muitos que ambicionam sucedê-lo).

ÉMERSON MARANHÃO – Jornalista do O POVO

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