Blog do Maranhão

Gabriel Baquit: o DJ e o Mar – As Caras de Fortaleza

Na edição de hoje, O POVO apresenta cinco pessoas que simbolizam diferentes facetas de Fortaleza, capital que comemora 293 anos. Com os senhores, o publicitário, designer e DJ Gabriel Baquit

É tortuosa a relação de afeto de Gabriel Baquit com Fortaleza, a cidade em que nasceu há 31 anos, onde cresceu e onde mora hoje. Tortuosa sim, mas ao mesmo tempo de um amor desmedido, garante o publicitário, designer e DJ, integrante do coletivo Tome Batom Vermelho.

Desde cedo, ainda adolescente no começo dos anos 2000, Gabriel sonhava em correr mundo, correr perigo, queria dar o fora, ir-se embora, como na canção de Caetano. E partiu.

Primeiro para os Estados Unidos, onde passou três meses fazendo intercâmbio. Depois para Portugal, onde cursou mestrado em Comunicação de Moda. Voltou com 24 anos, trazendo na mala o desejo de mais uma vez cruzar o oceano e se instalar no estrangeiro.

“Nessa época, eu tinha muitos amigos morando fora. Todos do Ceará. Eu ia para Barcelona ficava na casa de amigos cearenses, ia para Londres ficava na casa de cearenses. Era uma rede de amigos muito próximos espalhados pelo mundo”, lembra.

Ainda que a vontade de imigrar se mantivesse, Gabriel decidiu ficar para “ver qual era”. Apareceram oportunidades profissionais e ele foi aceitando. Terminou mudando de planos. Permaneceu, descobriu uma outra Fortaleza e se encantou pela cidade. Até mesmo pelas suas contradições. “Eu adoro Fortaleza porque ao mesmo tempo em que pulsa como uma cidade grande, às vezes ela te passa a sensação de ser uma vila, onde todo mundo se conhece”, pontua.

O DJ que anima algumas das mais descoladas festas aldeotinas gosta mesmo é de estar na rua, em espaços abertos e defende a ocupação da cidade. Ainda que se ressinta da insegurança que campeia por estas bandas. “Esse movimento de viver a rua ainda é meio marginal. Ele ainda não alcançou todos os bairros, todas as classes. Ainda é uma luta, é quase uma resistência ocupar a rua”.

E é nas ruas estreitas e fervidas da Praia de Iracema que Gabriel identifica a cara de sua Fortaleza. Uma Fortaleza que nasce da mistura e não da exclusão. “A Praia de Iracema é o que diferencia Fortaleza de todo lugar que eu já fui. Eu acho que ela reflete uma Fortaleza que se mistura. A praia é um ambiente de mistura em muitos lugares do mundo, mas a Praia de Iracema em si consegue misturar pessoas da periferia, de vários bairros, de todos os lugares. E é onde as pessoas esquecem essa diferença social que existe na cidade e permitem se divertir juntas”.

Dos encantos que encontra por aqui, Gabriel não titubeia em indicar o principal: o mar. “Ser uma cidade litorânea é maravilhoso. E Fortaleza não lhe sufoca porque tem o mar ali na frente. Você consegue olhar para um horizonte livre. Porque se não fosse isso talvez ela fosse sufocante. Mas não, aqui é possível estar de frente para o mar sempre que você quiser”, defende.

Por mais que pareça, não é óbvia esta relação de Gabriel Baquit com o mar. Antes, pode ser indício da mudança de sua relação com a própria cidade, e com os desejos de ida e de permanência.

“Quando eu era mais novo, não gostava de praia. Eu ia com minha família, mas não gostava. Achava muita gente, muita confusão. Até eu ir morar fora”, conta. “Quando faltava um mês para eu ir para Portugal, comecei a perceber que sentiria falta. E comecei a entender que perderia o mar. Passei a ir todos os dias dar uma volta na Beira Mar e mergulhar do lado do espigão. Foi a coisa que eu mais senti falta quando morava fora. E desde que eu voltei, comecei a viver mais o mar, a orla, a praia. Eu sou louco pelo mar. E percebi tardiamente esse tesouro da cidade”.

Duas maneiras de ver e ser Fortaleza

Das muitas Fortalezas possíveis, a minha cruza com a de Gabriel Baquit em dois eixos essenciais. O primeiro deles é a celebração da alegria, quer seja pelas ruas da Praia de Iracema, quer seja em festas privadas, quer seja ocupando a cidade.

Comungamos, ambos, do entendimento que a felicidade urge. E estou certo que não foi à toa que ele fez do festejar um dos seus ofícios (numa atividade que requer tanta criatividade quanto o design e a publicidade, suas primeiras ocupações formais).

O segundo é mais complexo, porque aparentemente antagônico. Temos, na verdade, trajetórias inversas. Apesar de morarmos na mesma Pequena Aldeia, de partilhamos alguns conhecidos, de nos encontrarmos pela noite, nossos deslocamentos se deram em sentidos opostos. Enquanto ele planejava ir, eu fiz foi chegar.

Ele é o que retornou à cidade natal e, ainda que tardiamente, encantou-se por ela. Eu sou aquele que, num encantamento quase precoce, tomou por sua a terra estrangeira e se acomodou no exílio voluntário.

ÉMERSON MARANHÃO / REPÓRTER

 

 

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