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Karim Aïnouz estreia hoje, em Cannes, ‘A vida invisível de Eurídice Gusmão’

A vida invisível de Eurídice Gusmão, sétimo longa-metragem de Karim Aïnouz, estreia hoje em Cannes, onde concorre na mostra Un Certain Regard. O filme é uma incursão do cineasta cearense no melodrama e tem a produção assinada por Rodrigo Teixeira

Émerson Maranhão / emerson@opovo.com.br

Dezessete anos depois de estrear em Cannes com Madame Satã, o cineasta cearense Karim Aïnouz está de volta à competição da mostra Un Certain Regard no prestigiado festival francês. É lá que hoje será a estreia mundial de A vida invisível de Eurídice Gusmão, seu sétimo longa-metragem.

Livre adaptação do romance homônimo de Martha Batalha, o filme traz nos papéis principais duas jovens estreantes no cinema: Carol Duarte, reconhecida por seu trabalho na TV (fez Ivan/Ivana em A Força do Querer e acaba do sair do ar como Stefânia em O Sétimo Guardião), e Julia Stockler, experiente atriz de teatro.

As duas foram selecionadas para os papéis em um concorrido teste com mais de 300 candidatas. Completam o elenco Fernanda Montenegro, como atriz convidada; Gregorio Duvivier, em seu primeiro papel dramático; Flavio Bauraqui, com quem Karim já havia trabalhado em Madame Satã; Bárbara Santos e Maria Manoella.

A vida invisível… se passa majoritariamente no Rio de Janeiro dos anos 1950 e conta a história das irmãs Guida e Eurídice, cúmplices e inseparáveis. Eurídice, a mais nova, é uma pianista prodígio, enquanto Guida, romântica e cheia de vida, sonha em se casar e ter uma família. Um dia, com 18 anos, Guida foge de casa com o namorado. Ao retornar grávida, seis meses depois e sozinha, o pai a expulsa de casa de maneira cruel. Guida e Eurídice são separadas para sempre e passam suas vidas tentando se reencontrar.

“Eu fiquei profundamente tocado quando eu li o livro. Disparou memórias intensas da minha vida. Eu fui criado no Nordeste dos anos 60, numa sociedade machista e conservadora, dentro de uma família matriarcal. Os homens ou haviam ido embora ou eram ausentes. Numa cultura patriarcal, eu tive a oportunidade de crescer numa família onde as mulheres comandavam o espetáculo – elas eram as protagonistas”, recorda Aïnouz, no material de divulgação do filme.

“O que me levou a adaptar A Vida Invisível de Eurídice Gusmão foi o desejo de dar visibilidade a tantas vidas invisíveis, como as da minha mãe, minha avó, das minhas tias e de tantas outras mulheres dessa época. As histórias dessas personagens não foram contadas o suficiente, seja em romances, livros de história ou no cinema”, completa.

Curiosamente, Karim já havia se debruçado sobre as “vidas invisíveis” de sua tias, mãe e avó no curta-metragem Seams (1993), que realizou quando morava em Nova York (EUA). Misto de documentário e ficção, narrado em primeira pessoa (por Fernando Pinto), Seams é a estreia do diretor no cinema e foi premiado nos festivais de Michigan, Nova York e Atlanta. A também cineasta cearense Jane Malaquias é uma das diretoras de fotografia. Para quem se interessar, o curta está disponível no YouTube.

Voltando a A vida invisível de Eurídice Gusmão, o filme marca o reencontro de Karim com o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, com quem o cineasta havia trabalhado em O Abismo Prateado (2011), que, coincidentemente, também foi exibido em Cannes, na Quinzena dos Realizadores.

Teixeira é um dos mais bem-sucedidos produtores de cinema brasileiros. No segmento internacional, sua RT Features produziu os longas Frances Ha (2013) e Mistress America (2015), ambos de Noah Baumbach; Love is Strange (2014), de Ira Sachs; Love (2015), de Gaspar Noé, The Witch (2016), de Robbert Eggers, Patti Cake$ (2017), de Geremy Jasper; e o indicado ao Oscar Call Me By Your Name (2017), de Luca Guadagnino.

“Quando eu li o livro eu pensei muito no Karim. Há tempos ele me dizia que gostaria de filmar um melodrama, que queria realizar um longa que se aproximasse de Fassbinder, de Sirk. E vi nessa história da Martha Batalha um potente melodrama a ser adaptado”, explica Teixeira. “Fazia tempo que estávamos buscando uma grande história para voltarmos a trabalhar juntos, então enviei para ele o manuscrito e ele topou na hora”.

O filme tem roteiro assinado por Murilo Hauser, em colaboração com a uruguaia Inés Bortagaray e o próprio diretor. A direção de fotografia é da francesa Hélène Louvart, que acumula trabalhos importantes na carreira, como os filmes Pina, de Wim Wenders; The Smell of Us, de Larry Clark; As Praias de Agnes, de Agnès Varda; e Lázaro Feliz, de Alice Rohwacher, entre outros.  A alemã Heike Parplies, responsável pela edição do longa-metragem Toni Erdmann, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, assina a montagem.

Karim Aïnouz define A vida invisível… como um melodrama tropical. Segundo ele, esta definição se deve porque a abordagem mistura preceitos clássicos do gênero, mas com um olhar que busca se adaptar a uma contemporaneidade brasileira.

“Eu sempre quis fazer um melodrama que pudesse ser relevante para os nossos tempos. Como eu poderia me engajar com o gênero e ainda torná-lo contemporâneo? Como eu poderia criar um filme que fosse emocionante como uma grande ópera, em cores florescentes e saturadas, maior que a vida? Eu me lembrava de Janete Clair e das novelas lá do início. Eu queria fazer um melodrama tropical filmado no Rio de Janeiro, uma cidade entre a urbes e a floresta”, pontua o diretor.

A plateia da mostra Un Certain Regard vai conferir hoje à noite o resultado desta incursão de Karim pelo melodrama. Já as plateias brasileiras terão que esperar até novembro, quando A vida invisível de Eurídice Gusmão está previsto para entrar no circuito comercial.

 

 

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