Blog do Maranhão

‘Inferninho’: Dores de amores na mesa do bar

| Nacional | Depois de percorrer vasto circuito de festivais no Brasil e no exterior, Inferninho, filme dirigido pelos cearenses Guto Parente e Pedro Diógenes, tem estreia comercial nesta quinta, 23

Émerson Maranhão / emerson@opovo.com.br

A partir desta quinta-feira, 23, o público brasileiro terá a oportunidade de conhecer as dores de amores de Deusimar (Yuri Yamamoto), a dona de um bar chamado Inferninho, que passou sua vida sonhando em ganhar o mundo. Até conhecer Jarbas (Demick Lopes), um marinheiro em busca de um porto seguro possível, e por ele se apaixonar.

A improvável história de amor entre os dois e suas consequências são o ponto de partida de Inferninho, longa-metragem de Guto Parente e Pedro Diógenes que estreia amanhã em circuito comercial no Brasil. Dirigido, escrito e protagonizado por cearenses, o filme ganha sessão especial no Cinema do Dragão, às 20 horas, seguida de bate-papo com os diretores e outros integrantes da equipe.

A chegada do filme ao mercado exibidor foi precedida por uma premiada e prestigiada carreira em festivais nacionais e internacionais. O longa, que teve estreia mundial no Festival de Rotterdam, já foi exibido em mais de dez países, da Europa à América Latina.

Fruto do encontro entre dois coletivos artísticos, o Grupo Bagaceira de Teatro e o Alumbramento Filmes, Inferninho é definido por seus realizadores como um melodrama. Mas que não se espere uma incursão clássica neste gênero cinematográfico. Inferninho é regido pelo estranhamento e é sob esta ótica que deve ser apreendido.

É preciso se afastar da lógica cartesiana para poder embarcar em sua trama. Debruçando-se sobre personagens à margem de padrões sociais, o filme termina por optar em também permanecer à margem, tanto de protótipos narrativos quanto de definições óbvias.

Cenas do filme Inferninho, de Pedro Diógenes e Guto Parente

Que não se espere de seus personagens verossimilhança ancorada no real. Pelas mesas do bar que dá nome ao filme, transitam clientes e funcionários como o garçom Coelho (Rafael Martins), a faxineira Caixa-Preta (Tatiana Amorim), e Luzianne (Samya de Lavor), a cantora.

Esta última, por sinal, tem função narrativa extra na história. Seu repertório, com clássicos do forró da década de 1990, compostos pela cearense Rita de Kássia, serve ora de fio condutor para a trama, ora faz as vezes de coro grego na tragédia clássica, comentando a ação. Mas atenção, até estas canções passam por um processo de desconstrução que as afastam da memória que se tem delas.

“A ideia de usar estas canções veio junto com esses desejos de melodrama, de trabalhar com esse tipo de estética, de estar falando desse lugar que é um refúgio para sentimentos, um refúgio para as pessoas viverem suas fantasias. De certa forma, (essas canções) também têm um tema meio de melodrama, sempre falando de amores, de grandes lutas por amor, então a gente trouxe o forró junto”, explica o diretor Pedro Diógenes, que também assina o roteiro junto com Guto Parente e Rafael Martins, do Bagaceira.

Também são dignas de destaque as atuações de Inferninho, tendo à frente Yuri Yamamoto. Sua Deusimar é sensacional. Não à toa, vem conseguindo emocionar plateias mundo afora. Aliás, mesmo com o devido relevo para Yuri, todo o elenco principal (composto ainda por Demick, Samya, Rafael e Tatiana) está muito bem e demonstram estar muito à vontade em personagens que exigem um desprendimento grande, justamente por não serem explicados. E mais não deve ser dito, para não correr risco de spoilers.

Ainda assim, é preciso ressaltar que Inferninho é uma experiência cinematográfica atípica, que merece ser vivida. Para Diogénes, muito do resultado final do que se vê na tela deve-se ao trabalho coletivo da equipe. “A gente acredita muito nessa construção coletiva para além dos diretores. É toda a equipe trabalhando criativa e coletivamente”.

Encontro entre cinema e teatro

Responsável pela direção de Inferninho, ao lado do parceiro Guto Parente, Pedro Diógenes fala ao O POVO sobre o processo de criação e as inspirações do longa.

Pedro Diógenes

Pedro Diógenes

O POVO: Há uma estética camp gritante no filme. Como foi essa construção?

Pedro Diógenes: Muito do clima e da estética vem do encontro entre o cinema e o teatro, (respectivamente) do Alumbramento e do Bagaceira. Eu acho que o filme nasce desse encontro, tudo é fruto disso. E esteticamente, também, eu o reconheço de muitos filmes do Alumbramento, como reconheço das peças do Bagaceira. O projeto nasceu em 2013 e a gente foi filmar em 2016. E a gente trabalhou muito essas coisas juntos. Em todo o processo, o Bagaceira estava com a gente. E a gente sempre teve na cabeça que esse encontro entre cinema e teatro não oprimisse nenhuma das duas linguagens, fosse um encontro que pudesse potencializar as duas. A gente nunca teve receio de trabalhar com certa teatralidade. Na verdade, a gente explorou isso. Então, eu acho que isso também faz parte da estética do filme. E a gente quis fazer um filme que não fosse muito calcado na realidade. A gente sempre teve essa veia não naturalista, não realista para trabalhar no filme. E isso está muito no que é o bar, em quem são aqueles frequentadores, de como é o figurino, como é a arte, vem desse desejo de fugir um pouco da realidade.

Festivais

International Film Festival Rotterdam (Holanda)

32nd London LGBT Film Festival (Inglaterra)

Festival Internacional del Uruguay

Bafici (Argentina)

Filmadrid (Espanha)

Filmfest München (Alemanha)

18º Santa Fe Muestra de Cine Independiente (Argentina)

Queer Lisboa(Portugal) – Prêmio de Melhor filme na sessão Queer Art

Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Mostra Internacional de Cinema de São Luís – Prêmios Melhor filme; Melhor Direção; Melhor Ator

Pornfilmfestival Berlin (Alemanha)

Festival do Rio – Prêmio Felix Especial do Júri; Prêmio Especial do Júri Première Brasil

XI Janela Internacional de Cinema do Recife – Prêmio Melhor Filme Longa-metragem; Melhor Imagem Longa-metragem; Melhor Filme Janela Crítica

26º Festival Mix Brasil

Mezipatra Queer Film Festival (Grécia)

32nd Festival Cineuropa (Espanha)

XIV Panorama Internacional Coisa de Cinema

IX Festival Internacional Pachamama

12º For Rainbow

Cine Esquema Novo

Assista ao trailer do filme:

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