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Pedro Diógenes: “A gente se jogou, de mãos dadas, numa experiência”

Inferninho, longa-metragem dirigido pelos cearenses Guto Parente e Pedro Diógenes, é um filme atípico. Resultado do encontro criativo entre dois coletivos artísticos, o Grupo Bagaceira de Teatro e o Alumbramento Filmes, o filme foi rodado em uma única locação, o bar que lhe dá nome; teve uma bem-sucedida carreira em festivais nacionais e internacionais, e acaba de estrear em 20 cidades brasileiras. Pedro Diógenes, um dos diretores, fala ao O POVO sobre o trabalho.

O POVO – Como você define Inferninho a partir de uma perspectiva de gênero cinematográfico?

Pedro – A gente sempre quis trabalhar com o melodrama. E, de certa forma, com uma influência muito grande de Douglas Sirk, de (Rainer Werner) Fassbinder (ambos cineastas alemães), de Pedro Almodóvar (cineasta espanhol)… A gente queria muito trabalhar com melodrama porque, além de ser um gênero que a gente gosta muito, também era um filme em que a gente queria falar de amor. E acho que uma das melhores expressões cinematográficas para falar de amores e seus dramas é o melodrama. E também, o cinema brasileiro acaba que trabalha pouco com o melodrama, pelo menos nos últimos tempos. Acho que é muito porque esse gênero acabou sendo um pouco aprisionado pelas telenovelas. Quando a gente fala em melodrama no Brasil a gente lembra logo das novelas, e elas acabam fazendo isso de uma forma bem particular, às vezes caricata.

OP – Como foi a experiência de trabalhar com o Grupo Bagaceira?

Pedro – Em todo o processo, o Bagaceira estava com a gente. Na verdade, Inferninho é um filme que as ideias iniciais nascem dentro do Bagaceira. Foi um exercício de teatro que eles fizeram, mas que nunca se desenvolveu, nunca chegou a virar uma peça. E eles apresentaram para a gente, e a gente já tinha uma vontade muito grande de trabalhar juntos. O projeto nasceu em 2013 e a gente foi filmar em 2016. E durante todo esse processo a gente estava junto. Escrevendo e reescrevendo o roteiro, definindo os personagens, criando, ensaiando… Foi um processo muito junto. Depois que a gente passou por todo esse tempo fazendo o roteiro, desenvolvendo exercícios com os atores, criando juntos, entrou a equipe, que também chegou com toda a sua criatividade e liberdade. Porque a gente acredita muito nessa construção coletiva para além dos diretores. É toda a equipe trabalhando criativa e coletivamente.

OP – O filme tem uma bem-sucedida carreira em festivais internacionais. Vocês esperavam esse sucesso todo?

Pedro – Pô, a gente não esperava não! Durante todo o processo do filme a gente não sabia nem onde é que ele iria dar, de certa forma. A gente estava andando em um lugar muito arriscado, a gente não tinha muito ideia se iria funcionar ou não. A gente simplesmente estava se jogando, de mãos dadas, numa experiência. E aí foi uma grande surpresa. Ele estreou no Festival de Roterdã, depois rodou muitos festivais internacionais, na Europa, aqui na América Latina, e no Brasil também. Então, foi uma alegria muito grande ver que esse encontro entre Alumbramento e Bagaceira, que nasceu lá atrás e que a gente desenvolveu com tanto carinho, com tanta paixão, e ao mesmo tempo com muito pouco recurso, que ele conseguiu ultrapassar barreiras e chegar nas pessoas, independente de ser na Holanda, na Alemanha, no Ceará.

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