Blog do Maranhão

O que Bolsonaro revela de si ao criticar decisão do STF

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(Brasília – DF, 14/06/2019) Café da manhã com Jornalistas. Foto: Marcos Corrêa/PR

“Quando Pedro fala de Paulo, sei muito mais de Pedro que de Paulo”. A máxima, atribuída a Freud, mas cuja autoria não foi comprovada, é sob medida para comentar as declarações do presidente Jair Bolsonaro a respeito da criminalização da homofobia pelo STF.

Em café da manhã com jornalistas nesta sexta-feira, Bolsonaro não se satisfez em criticar a decisão, obviamente acertada, da maioria da Corte. Achou por bem afirmar que a criminalização prejudica aqueles a quem deveria proteger. Para exemplificar sua esdrúxula tese disse que homossexuais passarão a ter mais dificuldades em conseguir emprego, uma vez que os patrões temerão ser acusados falsamente de “racismo” quando decidirem demiti-los um dia.

Não só. Comentou que a decisão do Supremo cria uma “cisão de luta de classes” (sic) e evidencia a necessidade de ter um ministro evangélico na mais alta Corte da Justiça no País, ainda que garanta não querer misturar política com religião.

Segunda a lógica atípica do presidente, um ministro evangélico poderia se contrapor à criminalização da homofobia com base em trechos da Bíblia (e não da Constituição, notem!). Ainda de acordo com Bolsonaro, este ministro, caso percebesse que sua posição não teria apoio dos seus pares, poderia pedir vistas do processo, “sentando” em cima dele e impedindo que voltasse a ser apreciado num futuro próximo.

Por fim, o presidente afirmou que, por causa de decisões como a criminalização da homofobia, “a convivência do País com o STF está se tornando insuportável”.

O que em comum têm estas declarações, além das sandices que traduzem e de serem de um mesmo autor? Todas são resultantes de uma visão de mundo que se dá através de ardis, de artimanhas, da má-fé.

Nenhuma delas se origina no estado de direito, numa perspectiva legalista, no respeito aos preceitos estabelecidos por lei. Pelo contrário, todas vêm de pontos de vista à margem, que pressupõem a malandragem, o “jeitinho”, a gambiarra, o drible no que é legítimo, a desonestidade, a vileza.

O suposto empregador não estaria preocupado com as qualidades e eficiência do empregado (homossexual ou não), mas na possibilidade de golpe que passa a estar exposto ao dispensá-lo. A se levar em consideração o que defende o presidente, estabeleceremos a ‘desonestidade em potencial’ como um novo critério corporativo.

Da mesma maneira o perfil do ministro do Supremo Tribunal Federal anunciado por Bolsonaro. Aquele que ocupará um lugar na cúpula do Poder Judiciário, “a quem compete, precipuamente, a guarda da Constituição”, deverá se valer de expediente enganadores, de artifícios dissimulados que configuram disfunção jurídica para impedir que vigore a decisão da maioria de seus colegas na Corte e obstar que a lei seja aplicada.

A tolerância à diferença, aliás, parece ser um grande problema para o pai do 01,02 e 03. Só isso explica a suposta ‘convivência insuportável’ do País com um STF que não lê pela sua cartilha. Nem deveria, uma vez que a Constituição garante aos três poderes “autonomia e independência entre si”.

Pouco importa se foi Freud ou não, o seu autor. De fato, “Quando Pedro fala de Paulo, sei muito mais de Pedro que de Paulo”. Não é verdade?

 

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