Blog do Maranhão

Reinações do Pequeno Príncipe

  

O Brasil chegou a um ponto tal que qualquer tentativa de compreendê-lo só é possível através da fábula. É como se, mesmo após acordarmos de sonhos intranquilos, fossemos surpreendidos, a cada manhã, por um corpo outro onde não nos reconhecêssemos. A trama é tão assombrosa que esse esboço de narrativa que começa em Kafka de súbito se desdobra em Saint-Exupèry.

Ainda que não estejamos perdidos no deserto, ao menos oficialmente, temos agora por companhia um Pequeno Príncipe. Eduardo Bolsonaro, vulgo 03, está prestes a ser confirmado como o novo embaixador do Brasil nos Estados Unidos, mais alto posto da carreira diplomática do País.

Suas qualificações para tão desejado cargo? “Ele é amigo dos filhos do Donald Trump, fala inglês e espanhol”, justifica o pai, Jair Bolsonaro, ora presidente da República. “Já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos”, defende-se o próprio infante.

E não importa que a nomeação anunciada pelo titular do Palácio do Planalto lance à sarjeta a formação no Instituto Rio Branco, a escola diplomática do Brasil, onde o Pequeno Príncipe nem passou pela calçada. Menos ainda que a prática de indicar familiares a embaixadas só seja comum em regimes autoritários. Ou que as justificativas para a indicação tenham se tornado, de pronto, alvos de chacota on e offline. São outros os tempos, lembra-nos o corpo disforme que agora habitamos.

Talvez, o susto seja indevido. Desde a posse de Jair Messias, seus herdeiros já se comportam como se a nobreza houvesse voltado oficialmente a esta plagas. O protagonismo político dos três filhos mais velhos do presidente não só é inédito como trouxe mais perdas que ganhos neste primeiro semestre com o clã à frente do poder. E aqui pouparei o leitor da triste memória dos episódios vividos por Flávio, Carlos e Eduardo, dignos do anedotário nacional.

O fato é que a indicação da ida de 03 para Washington diz mais do que aparenta. É um sinal claro que o chefe do clã não se perturbará com o grito de quem, em meio à multidão, lhe notar a nudez involuntária. Nem mais perguntará ao espelho quem é mais poderoso que ele.

Émerson Maranhão – emerson@opovo.com.br

 

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