Cinema às 8

“Festa da Salsicha”: Sexo, produtos perecíveis e deuses insaciáveis

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Para bem ou para mal, “Festa da Salsicha”, de Greg Tiernan e Conrad Vernon, é um marco. Porque, vejam bem, se sexualidade era um tabu em animações, hoje não se pode dizer o mesmo. É um limite que ninguém nunca questionou e, talvez, fosse melhor deixado de lado.

Animações são, em geral, pensadas para um público infantil. Desde os trailers e teasers, “Festa da Salsicha” deixa claro que não se trata de seu público-alvo. O fato é sub-entendido já no design de produção dos protagonistas: salsichas e pães do tipo “bisnaga”. Enquanto a concepção fálica dos primeiros faz com que eles sejam, naturalmente, assumidos como pênis, o formato dos pães é modificado para adquirir curvas femininas e cores, digamos, que remetem a uma vulva. E mal dá para acreditar que estou escrevendo isso.

Em linhas gerais, os produtos do supermercado são todos antropomorfizados, no estilo “Carros” (2006). Paralelamente, esses objetos inanimados ganham vida sem o conhecimento dos humanos, de forma semelhante a “Toy Story” (1995). Boas referências da Pixar, o melhor estúdio de animação da atualidade. Na trama, um grupo de salsichas e outro de “bisnaguinhas” acabam descobrindo que o paraíso prometido pelos seus vizinhos de prateleira era uma mentira. Mal sabem eles, mas os “deuses” que veneram comem salsichas (e pão, e outros alimentos) para ficarem mais fortes. Cabe a Frank, a salsicha romântica, investigar o assunto e promover uma revolução da comida. Um dos argumentos mais aleatórios jamais imaginados.

Brenda, Frank, a Bagel e o Pão Árabe

Brenda, Frank, a Bagel e o Pão Árabe

A principal qualidade do filme é conseguir fugir do óbvio e, de repente, trazer discussões inteligentes. O questionamento da espiritualidade feita por Frank (o cético ateu) contra o restante de “fanáticos religiosos” beira o genial – principalmente pela quebra que propõe. O roteiro, de Seth Rogen, Jonah Hill e Evan Goldberg, vai da demência extrema para a análise crítica na velocidade em que os protagonistas fumam um baseado. Que, aliás, volta a ser assunto frequente dessa turma, como em “Segurando as Pontas” (2008) ou “É o Fim” (2013).

Ah, além disso há o sexo. Não é bem um assunto que surge rapidamente no filme. É mais como uma razão de ser de todos os personagens da obra. Tudo que a salsicha quer é entrar na bisnaga. Tudo que a bisnaga quer é sentir a salsicha em si. É tudo tão errado que até chega a soar certo no hediondo ápice do filme. Assim, dá vontade de jogar álcool gel nos olhos, mas é difícil não rir. O destaque, inclusive, vai para o deus da ópera-rock, Meat Loaf, que, no filme, faz um cantante Bolo de Carne (meatloaf, em inglês).

Voltando ao design de produção, assinado por Kyle McQueen, a noção do óbvio funciona bem, mas existem exageros que incomodam. As salsichas, em determinado momento, falam de suas “luvinhas” e se movimentam abertamente sem os humanos se darem conta. É o completo oposto de “Toy Story”, no qual os brinquedos se escondem e usam suas próprias maneiras para se locomover (se não têm pernas, se arrastam). Outro incômodo é nas marcas dos produtos. Provavelmente por motivos de direitos autorais, nenhum dos alimentos apresentados são identificados como provenientes de grandes empresas. Era uma chance de ampliar a brincadeira de estereótipos proposta no longa.

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Esse jogo com minorias, inclusive, erra mais do que acerta. É divertido ver as brigas da bagel (judia) com o pão árabe. Mas soa um pouco forçado identificar os alemães como fatalmente nazistas. Ou dizer que a berinjela tem de ser um homem negro. Ou que mexicanos são parte de gangues latinas.

“Festa da Salsicha” é um filme para quem tem estômago, com perdão do trocadilho. Extremamente ofensivo, pendendo para o humor físico e infantil, mas com tiradas completamente inesperadas, o longa é único. Fosse uma obra mais trabalhada, mesmo que com um design mais improvisado, ele poderia ser uma obra inesquecível – como “Team America: Detonando o Mundo” (2004). No fundo, porém, parece mais um jogo meio sádico de masturbação entre adolescentes com excesso de hormônios. Soa meio sujo até para quem sente prazer com aquilo.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 4/8

Ficha técnica
Festa da Salsicha (EUA, 2016), de Greg Tiernan e Conrad Vernon. Animação/Comédia. 89 minutos. Com vozes de Seth Rogen, Kristen Wiig e Edward Norton no original, de Guilherme Briggs e Gregório Duvivier no dublado.

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