Cinema às 8

Um shaolin ainda longe de virar mestre

Nas artes marciais, o treinamento é a base. Se os ensinamentos filosóficos variam de arte para arte, a constante de que sem treino não há perfeição é imutável. Levando esse princípio para o Cinema, o que vemos em “Shaolin do Sertão”, que chega hoje, 13 de outubro, às telas do Ceará e na próxima quinta-feira, 20 , ao restante do Brasil, é um Halder Gomes mais experiente em sua direção.

Especialmente no aspecto técnico, o cearense se mostra como um faixa roxa, se levarmos a analogia para a graduação judoca. Ao contrário de “Cine Holliúdy”, onde tudo parecia muito básico, aqui a beleza dos cenários salta aos olhos. A fotografia, em especial, equilibra a intensidade do sol sertanejo, fugindo do clichê de mostrar a região como abrasiva. A escolha dos ambientes também foi acertada, com localidades variadas e interessantes.

Mas não vamos nos adiantar. Na trama, o padeiro-chacota Aluísio Li, amante de filmes de artes marciais chineses, é selecionado para enfrentar Toni Tora Pleura (Fábio Goulart), lutador que viaja pelas cidades derrotando os mais fortes combatentes em cada local. A trama é inspirada diretamente na infância de Halder e nos reais combates que ocorriam no Ceará durante a década de 1980.

Ao lado do protagonista, os coadjuvantes acabam por se tornar um conjunto de personagens que muitas vezes soam desnecessariamente caricatos, sem ganharem profundidade alguma. Os destaques ficam para Piolho, interpretado por Igor Jansen e Chinês, o mestre shaolin de Li, representado pelo cantor Falcão. Ambos dão performances competentes e conseguem tirar algumas risadas.

Chegamos, então, ao humor do filme. Agora em foco da carreira de Halder Gomes, os regionalismos cearenses permeiam a trama a todo momento. Novidade em “Cine Holliúdy”, aqui o recurso chega a cansar em algumas situações. Por mais que tente soar natural ao incorporar um “aí dento” em uma discussão, a expressão soa forçada devido aos atores, que esbugalham os olhos e gritam de forma que pouco lembra suas inspirações no mundo real.

Em outros momentos, contudo, é possível dar verdadeiras risadas quando referências tipicamente cearenses são bem realizadas. Desafio um espectador a não dar ao menos um sorriso ao ver o apresentador João Inácio Jr. surgir em tela como narrador das lutas. Inclusive, o longa é repleto de aparições de atores famosos do público, desde Marcos Veras até o icônico Dedé Santana, em uma das atuações mais equilibradas do filme.

Realizada pelo próprio Edmilson Filho, a coreografia das cenas de luta é convincente e é possível perceber nelas o talento do ator para as situações, ele próprio mestre 5º grau em Taekwon-do.  

Apesar de realizado com competência, “Shaolin do Sertão” cansa em alguns momentos pela repetição de seu humor. A trama, ainda que desenvolvida de forma coerente, falha em empolgar o público, caindo em diversos clichês. Com “Cine Holliúdy 2” já confirmado e com gravações marcadas para começar em janeiro próximo, resta aguardar para que Halder Gomes consiga apresentar algo a mais em seus próximos trabalhos.

Cotação: nota 4/8.

Ficha Técnica
O Shaolin do Sertão (BRA, 2016). Comédia/Ação. De Hálder Gomes. 91 minutos. Com Edmilson Filho, Falcão, Dedé Santana e Fábio Goulart.  

“O Shaolin do Sertão”: piada até o talo

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