Cinema às 8

O (péssimo) vazio de “Demônio de Neon”

Eu, após assistir a esse filme.

Eu, após assistir ao filme.

Um mundo cheio de glitter, brilho, fama e pompa. Belas mulheres, fotógrafos importantes e descolados. Agentes que são verdadeiros visionários, com olhos tão eficientes que percebem logo o destaque futuro de uma grande modelo. Atraída pelo universo das passarelas e sessões fotográficas, a iniciante Jesse (Elle Fanning) irá entrar de cabeça neste mundo. E é esse o resumo que posso fazer, sem spoilar nada, de “O Demônio de Neon”, novo longa de Nicholas Winding Refn, um nome agora capaz de me provocar pesadelos inomináveis.

Responsável pelo divertido “Drive” e “Apenas Deus Perdoa”, o dinamarquês possui um senso estético invejável. Se no primeiro ele conseguiu unir belas cores e uma montagem ágil a uma trama interessante, no segundo já era possível perceber a diminuição da importância do roteiro em prol da forma do filme. Cores vibrantes, unidas a imagens lentas compunham uma obra que dividiu opiniões, mas que considero positiva.

Então chegou 2016 e o Festival de Cannes. Vaiado por alguns e amado por outros, “O Demônio de Neon” conseguiu diversas notícias nos portais especializados. Finalmente chegando às salas nacionais nesta quinta-feira, 20, consegui, enfim, entender a revolta do público.

A primeira impressão é fabulosa: Elle Fanning, de fato deslumbrante, envolta em uma tinta que simula sangue, durante uma sessão de fotos. Surge primeira atração da moça pelo mundo da moda. As primeiras mentiras. Digo, inclusive, que me parecia ser um filme muito bom. A falta de profundidade dos personagens, que pode ser inferida como proposital para referenciar as aparências da moda, logo deixa de surgir como metáfora e sim como a inabilidade de Refn, também responsável pelo roteiro, de criar personagens identificáveis para o público.

Jesse segue à risca a cartilha de “jovem-inocente-desvirtuamento-mentiras-agora sou foda-vou pagar por isso” que tantas tramas semelhantes já trouxeram. Gostaria de falar dos coadjuvantes, mas apenas Ruby, interpretada por Jena Malone, ganha algum destaque que valha nota. Os clichês se amontoam e é possível perceber os rumos a minutos de distância.

Sem ser injusto, os aspectos técnicos do filme brilham em todos os momentos. Como nem mesmo o diretor se importa com a história, resta aos espectadores admirar os planos magníficos criados pelo dinamarquês. É essa a melhor parte da experiência de “O Demônio de Neon”. O posicionamento dos personagens, a fotografia fluida e as cenas envoltas em uma atmosfera (falha) de tensão resultam em composições marcantes. Certamente darão ótimas fotos de capa no Facebook ou papéis de parede.

Trazendo, obviamente, um final que busca desesperadamente chocar, Refn precisa de uns anos na geladeira. Buscar um roteiro de verdade, com uma boa história que mereça ser contada, ao invés de ter uma bad trip e resolver colocar isso no papel.

Cotação: nota 2/8

Ficha técnica:
O Demônio de Neon (EUA, 2016), de Nicholas Winding Refn. Suspense. 118 min. Com Elle Fanning e Jena Malone. Em cartaz no Cinema do Dragão do Mar. Sessões às 17h10 e 19h30.

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