Cinema às 8

“A Garota no Trem”: Entre a leviandade e a cumplicidade

AVISO: Esse texto contém revelações que podem ser consideradas spoiler. Um texto limpo não levantaria toda a discussão que o filme propõe.

Rachel (Emily Blunt): A Garota no Trem, sabe?

Rachel (Emily Blunt): A Garota no Trem, sabe?

Para discutir o efeito de “A Garota no Trem”, suspense de Tate Taylor baseado no romance de Paula Hawkings, é importante traçar os paralelos da nova obra com o sucesso “Garota Exemplar” (2014), de David Fincher, a partir do livro de Gillian Flynn. São sinopses relativamente parecidas, roteiros com semelhanças inegáveis, desenvolvimentos espelhados e, no fim, conclusões quase opostas. No fim das contas, há um paradoxo entre qualidade estética e proposta social entre os dois.

“Garota Exemplar” é um thriller como poucos. Inteligente, com atuações brilhantes, instigante, ele consegue surpreender e manter a atenção mesmo com sua estrutura de três atos quebrados. O problema, no entanto, é na construção das personagens femininas. É quase um clichê vitimista de homens brancos heterossexuais, que acusam o feminismo e o politicamente correto de destruírem o mundo. No filme, praticamente todas as mulheres apresentam sintomas de histeria e um senso de drama apurado. Controladoras, maquiavélicas, capazes de “destruírem a vida de um homem honesto”. Amy Dunne (Rosamund Pyke) chega a simular um estupro, algo que praticamente só existe numa mente machista.

“A Garota no Trem”, por sua vez, é um filme cheio de buracos. A trama acompanha três mulheres diferentes, mas com destinos ligados: Rachel (Emily Blunt), Megan (Haley Bennett) e Anna (Rebecca Ferguson). Quem guia o olhar é Rachel, mulher divorciada, infeliz e com um quadro avançado de alcoolismo. Diariamente, ela passa diante da casa de Megan e inveja sua vida. Diariamente, ela tenta não olhar duas casas acima, onde Anna vive com Tom (Justin Theroux), ex-marido de Rachel. Um dia, Megan some e Rachel, que vive episódios recorrentes de amnésia alcoolica, vira a principal suspeita.

Megan (Haley Bennett): A Garota na Sacada?

Megan (Haley Bennett): A Garota na Sacada?

Esses buracos na memória de Rachel são o recurso narrativo mais forte e mais falho do longa. Os pedaços de lembranças surgem a todo tempo na tela. Só que, para funcionar como suspense, “A Garota do Trem” precisa mentir. Descaradamente. Flashbacks falsos são jogados na tela, de forma que a verdade se esconda ainda mais a fundo. Dessa forma, o plot twist (reviravolta da trama) parece mais surpreendente. Acaba sendo um suspense desonesto, que usa de artifícios para manter o interesse.

Se “Garota Exemplar” se divide entre três partes quase independentes, “A Garota no Trem” se ancora nos pontos de vista das três personagens principais. O filme, no entanto, sempre pende mais para Rachel, que até dispensavelmente narra as primeiras cenas. Esse olhar enviesado dá menos espaço para disputa de versões, algo que claramente é proposto por “Garota Exemplar”. Dessa vez, o discurso é quase todo de Rachel e somos levados a gostar de uma protagonista destroçada. Quando funciona, a obra parece mais mérito de Emily Blunt, que se mantém tolerável mesmo quando a personagem é odiável, do que do diretor Tate Taylor.

Anna (Rebecca Ferguson): A Garota com o Bebê?

Anna (Rebecca Ferguson): A Garota com o Bebê?

A diferença, e a importância da obra de Taylor, reside na conclusão. Ainda que penda ao melodrama panfletário, o texto claramente propõe uma noção de sororidade, de irmandade de mulheres contra a opressão. A construção de Megan já demonstra isso, quando homens e a diminuem ao discutir maternidade. Sua morte, com um grito contra o assassino fecha o caixão da discussão. Há, ali, uma batalha entre os sexos. Entre mulheres oprimidas por um homem controlador.

O ápice, apesar de meio corrido e sem toda a tensão que poderia ter, é a união de duas pessoas que se odeiam e se descobrem vítimas da mesma pessoa. Mais que isso, duas mulheres que se aceitam como vítimas e decidem lutar. Não é coincidência o close de Anna jogando uma pá de cal sobre o marido. Ali é ela aceitando que viveu (ou viveram) uma mentira.

Tanto “Garota Exemplar” como “A Garota no Trem” são filmes sobre relacionamentos abusivos. Se não há violência física, há o controle e a forma como alguém é apagado pelo seu cônjuge. Num contexto onde a mulher é quase sempre abusada pelo homem, como em nossa sociedade machista, o filme mais recente tem uma proposta social bem mais acertada. Como cinema, porém, é claramente o contrário. Quem sabe, um dia, Hollywood resolva deixar uma mulher dirigir um longa sobre relacionamentos abusivos, baseado em romance de uma escritor. Seria sonhar demais?

Cotação: nota 4/8.

(andrebloc@opovo.com.br)

Ficha Técnica
A Garota no Trem (EUA, 2016), de Tate Taylor. Suspense. 112 minutos. Com Emily Blunt, Haley Bennett e Rebecca Ferguson.

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