Cinema às 8

“Cinema Novo”: poesia e política

Cena de "Os Herdeiros" (1970), de Carlos Diegues

Cena de “Os Herdeiros” (1970), de Carlos Diegues

Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Glauber Rocha, Ruy Guerra, Carlos Diegues, Gustavo Dahl, Arnaldo Jabor. Enfileirados assim, os nomes pouco mais dizem que um artigo da Wikipédia. Eryk Rocha, então, fez mais do que dar voz aos nomes. Ele ilustrou uma trajetória em imagens em movimento. Misturou afeto e verve no documentário-ensaio “Cinema Novo”.

Diferente da proposta puramente documental, o diretor optou por deixar que o arquivo contasse um pensamento. O filme não conta a história do movimento Cinema Novo ou de seus atores. Para o longa, os nomes são apenas isso, nomes. O que importa é o que foi feito. Para o diretor, a pouco mais de uma década de resistência social cinematográfica é sentimento convertido em arte.

A escolha única, porém, apresenta bastantes percalços. Afinal, “Cinema Novo” não prima pelo didatismo. Quase sensorial, o doc passeia por filmes clássicos e obscuros dos cineastas brasileiros. Com um ritmo frenético, a obra não se debruça em legendas. Na verdade, o espectador mais leigo é jogado em meio a referências específicas do movimento da década de 1960. À ele, cabe aceitar perder-se ou se resignar a não fazer parte do discurso. Mas a recompensa é rica para quem resolve soltar as amarras e se perder no caleidoscópio cinemanovista.

Cena de "A Falecida" (1965), de Leon Hirszman

Cena de “A Falecida” (1965), de Leon Hirszman

Apesar de imbuído de uma paixão, “Cinema Novo” é fiel às hipocrisias do grupo, formado por pares ricos de Bahia e Rio de Janeiro que tentavam traduzir um Brasil injusto do qual não faziam parte. Por vezes, o filme de Eryk Rocha escancara aquela panelinha de homens brancos e ricos que, dentro de toda a genialidade, excluíam discursos dissonantes e estéticas que julgavam inadequadas. Há um incômodo persistente com a falta de público dos filmes, mas nenhum questionamento sobre aproximação com a população mais pobre, que os cineastas acreditavam representar. É quase como parear “Cinco Vezes Favela” (1962) e “5x Favela, Agora por Nós Mesmos” (2011)

Para além disso, “Cinema Novo” permite um mergulho, ainda que raso, em referências e no motor social de uma sequência de diretores. Há uma saudade constante ao rever obras queridas. Paralelamente, a curiosidade pulsa quando surge uma imagem desconhecida. A falta de legendas atrapalha nisso, mesmo que adicione agilidade. O efeito caleidoscópio funciona, mas também frustra quem quer um mergulho mais profundo nas referências.

Cena de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha

Cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha

Acima de tudo, porém, “Cinema Novo” tem o mérito do tempo. Mais do que uma análise fria, que depurasse as décadas desde o fim do movimento, o documentário aproveita um contexto social parelho para relembrar a efervescência daquele momento. Ali, Leon, Glauber e Nelson se moviam à revelia de uma ditadura. Usavam a arte para denunciar injustiça. Para expressar dor e miséria. Hoje, diante do “golpe institucional”, a arte foi das primeiras a se levantar. É caminho aberto para uma voz que já falha de tanto gritar.

Vítima de suas paixões e artífice de sua política, “Cinema Novo” mais acerta que erra. Por mais oba-oba e “Clube do Bolinha” que pareça, há uma verdade universal naquelas expressões. Eryk não procura os sobreviventes para analisar aquilo, mas retalha os sentimentos que existiam lá, quando tudo era imediato. Como espelho, os anos 1960 refletem a resistência do hoje — diferente, mas democrática –, mas ainda combativa, artística. Mais que filme de personagens, é filme de sentimentos — e talvez a obra não faça justiça a tantos cinemanovistas relevantes. Acaba que, por bem, por mal, “Cinema Novo” é um filme de dois tempos. O então e o porvir.

Cotação: nota 6/8.

Ficha Técnica
Cinema Novo (BRA, 2016), de Eryk Rocha. Ensaio documental. Com Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman e Glauber Rocha.

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