Cinema às 8

“A História Real de um Assassino Falso”: sem riso, sem emoção

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Toda a noção de crítica cinematográfica gira em torno da isenção do autor. Diferentemente da imparcialidade, ausente em textos de opinião, a isenção seria algo como a presunção de inocência. Para falar bem ou mal, eu me assumo parcial. Para analisar friamente, preciso abandonar qualquer pré-julgamento. E, confesso, é trabalho hercúleo tentar encarar uma obra de Jeff Wadlow (aquele que estragou “Kick-Ass 2”) e protagonizada por Kevin James (espécie de Leandro Hassum americano) e manter o mantra do “vai que é bom”.

Mas, claro, precisamos de humildade e admitir quando um filme agrada. O que, claro, está longe de ser o caso, mas é importante manter a energia positiva. Eu queria até poder dizer que o filme surpreendeu e é pior do que a encomenda, mas nem a isso a “comédia” se preza. É só um emaranhado de clichês construídos em um roteiro porco que se pretende metalinguístico. Tentando emular a dualidade de obras como “O Último Grande Herói” (1993) ou “True Lies” (1994), o filme de Jeff Wadlow não consegue convencer na ação, tampouco na comédia.

Toda a base do filme se fixa na ocupação do protagonista, um escritor amador. Apaixonado por pesquisa, Sam Larson (James) busca os mínimos detalhes para uma boa trama de espionagem. Para isso, ele conta com a consultoria do ex-agente Amos (Ron Rifkin), que um dia menciona a misteriosa figura do “Sombra”, uma espécie de 007 renegado. Se você ainda não adivinhou para qual caminho a trama vai, agradeço pela ingenuidade.

Kevin James é tão convincente como ator de ação quanto como ator romântico

Kevin James é tão convincente como ator de ação quanto como ator romântico

Em suma, farei a favor de dar spoilers. Por favor, leiam e evitem o filme. Larson é confundido com um espião real, sequestrado para fazer uma série de assassinatos, é incompetente, mas tem sorte, é raptado de novo, é incompetente, mas tem sorte, é raptado de novo, é incompetente, mas tem sorte. Aparece uma linda mulher. Momentos românticos e de ação semelhantes àqueles escritos por Larson. Reviravoltas (óbvias) na trama. Salvamento final protagonizado por Amos que (surpresa!) era “Sombra” o tempo todo. E toda uma gama de clichês longa demais para a Internet.

Acima de tudo, porém, o que mais irrita é o roteiro, de Jeff Morris. Porque se existe uma característica interessante no filme, é o esmero de Larson como escritor. Ele pesquisa, busca detalhes, treina e se aperfeiçoa. Já Morris, prefere o clichê do guerrilheiro sul-americano que se finge idealista, do presidente ianque sul-americano, da heroína de trajetória pessoal sofrida. E, se houvesse o mínimo de pesquisa, Morris notaria que é, no mínimo, ofensivo situar a história numa Venezuela dominada por um presidente norte-americano, com uma guerrilha à la Farc batendo à porta. Não dá para discutir geopolítica com quem nunca abriu um Atlas.

Eu, vendo o filme

Eu, vendo o filme

Outro problema que parece insolúvel é a forma como o filme se insere nos dois gêneros com que flerta. Kevin James nunca seria convincente como herói de ação e o filme tenta fazer humor com isso. O problema é que ele é sempre escada da piada, o que soa francamente gordofóbico. As sequências de ação parecem todas coreografadas em câmera lenta, sempre com armas pulando de mãos e golpes de uma versão tartaruga de krav magá. Já a comédia. Juro, eu seria sincero se tivesse rido uma vez. Acho que esbocei um sorriso de constrangimento – e olhe lá.

No fim das contas, a obra original da Netflix é um caça-cliques eficiente. Existe uma necessidade íntima e carregada em culpa ao se ver uma comédia despretensiosa. E toda a série de longas de Kevin James, Adam Sandler, Rob Schneider e o restante de sua patota é sofrível.

Espero, sinceramente, que essa crítica traga algum riso. Já é mais do que os 98 minutos de “A História Real de um Assassino Falso”.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 2/8.

Ficha Técnica
A História Real de um Assassino Falso
(EUA, 2016), de Jeff Wadlow. Ação/Comédia. 98 minutos. Com Kevin James.

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