Cinema às 8

“Neruda”: o poeta é o fingidor

Não foi Pablo Neruda, mas Fernando Pessoa quem disse que “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. Fosse sobre o português, a frase serviria de epígrafe da cinebiografia fake “Neruda”, de Pablo Larraín, sobre a perseguição que o escritor e então senador comunista chileno sofreu na década de 1940.

Os limites entre obra e protagonista, portanto, são o centro da adaptação. Primeiro, entenda-se até que ponto foi a realidade e lembre-se que o filme é baseado em roteiro original de Guillermo Calderón, não em biografia de Neruda. O poeta de fato era o grande intelectual chileno e sempre denunciou mandos e desmandos do governo local internacionalmente. Comunista convicto após participar da Guerra Civil Espanhola, ele era um stalinista ferrenho e via o ditador soviético como herói – chegando a admitir culpa anos depois, se dizendo responsável por disseminar o “culto à personalidade” de Stálin no mundo. Em 1945, ele foi eleito senador e, meses depois, entrou oficialmente para o Partido Comunista. Em 1948, após romper com o presidente González Videla, ele fez um discurso inflamado e acabou sendo exilado, após 13 meses fugindo da prisão.

“Neruda” é focado nesses 13 meses. Ou no que o poeta poderia romantizar sobre esses tempos. Poeta dos versos largos e do sofrimento do povo que vive da terra, Neruda (Luis Gnecco) é retratado com a indolência com que o conservadorismo trata comunistas. Gordo, preguiçoso, sonhador e envelhecido aos 44 anos, ele goza da fama galgada por seus versos mais melosos, enquanto divide drinques com lideranças do Partido e a velha aristocracia. Nos primeiro ato do filme, existe um suspiro de tridimensionalidade no personagem, quando o mesmo tem uma discussão recheada de uma fina ironia com Arturo Alessandri (Jaime Vadell), ex-presidente chileno e então líder do Senado.

O antinaturalismo na montagem da obra funciona nesses embates, com cortes bruscos e mudanças de cenário para ressaltar nuances. Até o fim do primeiro ato, a obra parece, de fato, original, interessante, viva. Parece. A artificialidade, no entanto, vai ganhando peso. A falta de profundidade em todo aquele denso contexto político do Chile de 1948 é tão surreal que parece obra de Neruda. Só que falta de profundidade não era lá característica do escritor.

O aspecto mais interessante do longa acaba sendo a biografia (também falsa) de Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal), o grande perseguidor de Neruda. História sofrida (falsa), espelhada na própria trajetória de Neruda, ele é apaixonado por Neruda de uma forma que só perseguidores implacáveis são capazes. A narração em off, do próprio Bernal, tenta trazer dilemas, novas facetas aos dois lados da história. Mais uma vez, só tenta. O nível de afetação em tudo torna a experiência gradualmente mais intragável, com os 107 minutos se arrastando no óbvio e lento ato final.

Por mais original que a biografia falsa soe, ela segue uma proposta linear e tradicionalista. Visualmente quadrado, o filme perde em unidade e tenta compensar em emoção, caindo na vala comum do sentimentalismo. E como é difícil gostar de qualquer um dos protagonistas, o longa do competente Pablo Larraín (de “No” e “O Clube”) se arrasta.

O que fica de bom é a construção dos diálogos. O já citado embate entre Neruda e Alessandri é delicioso, bem como a revelação de Delia del Carril (Mercedes Morán) sobre a natureza da obra biográfica. De certa forma, parece que o filme busca o floreio para se fazer iconoclasta. Mas para se prejudicar uma imagem, é necessário um retrato mais cristalino. Se o objetivo era glorificar a capacidade criativa de Neruda, o resultado foi fazer com que o que o poeta tocasse soasse aborrecido, lento e chato. Soa como se o poeta conseguisse transformar a ação constante da perseguição em um falatório repetitivo sobre legado.

Cotação: nota 3/8.

Ficha técnica

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