Cinema às 8

“Rogue One”: novo front da Força

Adivinha o que o androide faz? Isso mesmo: piadas

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Na concepção, “Rogue One: Uma História Star Wars”, de Gareth Edwards, flerta com o brilhantismo. Ao esmiuçar uma fala inicial de “Star Wars – Uma Nova Esperança” (1977), o filme busca oxigenar a narrativa das sete obras originais, enquanto oferece novos elementos. E no cerne da trama, os roteiristas John Knoll e Gary Whitta diagnosticaram uma veia pulsante no universo Star Wars, tão povoado da luta do “bem” (jedis) contra o “mal” (siths). Focado nos rebeldes, “Rogue One” mostra que existe escuridão mesmo dentro do mais justo. Só que conceito e execução nem sempre andam de mãos dadas.

A trama se inicia em um prólogo, quando a jovem Jyn Erso (Beau Gadsdon quando criança, Felicity Jones quando adulta) presencia a morte da mãe e o sacrifício do pai para salvá-la. O parente, Galen Erso (Mads Mikkelsen), fez abandonou o projeto de uma arma invencível e o Império o quer de volta. Anos após perder pai e mãe, Jyn é uma jovem contraventora que acaba recrutada pela Aliança Rebelde para tentar estabelecer contato com Saw Gerrera, amigo de Galen, ex-tutor de Jyn e líder rebelde extremista.

A discussão sobre a, digamos, retidão dos protagonistas surge na introdução de Cassian Andor (Diego Luna), convicto líder rebelde que não hesita em executar uma fonte de informação que não lhe é mais útil. Ele é quem ciceroneia a viagem de Jyn para encontrar Gerrera. Os dilemas de Andor são até relativamente bem desenvolvidos. Ele tem tempo de tela suficiente para crescer e se mostrar um personagem minimamente crível. Esse jogo de personalidades cinzentas, porém, se perde em Gerrera, que investe em tortura para julgar o caráter de aliados. E é esse personagem que mostra o quanto Edwards peca na construção de sua trama.

Praticamente um set para uma partida de RPG

Praticamente um set para uma partida de RPG

Ator veterano e consagrado, Whitaker está risível no filme. E o papel é 100% sério. É constrangedor ouvir a voz esganiçada do suposto rebelde, que contrasta ainda mais com o histórico violento do personagem. A ideia, ao que parece, era compor Gerrera com traços de loucura, elementos esquizoides, mas tudo soa falso e corrido. Infelizmente, a atuação lamentável de Whitaker não é a única. Felicity Jones exibe cara de paisagem, mas pelo menos se esforça. Diego Luna mantém a mesma toada monocórdia pelo filme inteiro. Donnie Yen parece confundir cegueira com falta de expressão. Até Mads Mikkelsen parece entediado! E todos esses são atores comprovadamente de qualidade, o que expõe a limitação da direção de atores de Edwards.

Voltando a Yen, ele representa outro ponto positivo mal usado no longa. Ele e Baze Malbus (Wen Jiang) são espécies de monge de um templo jedi destruído. Ali, está todo o alicerce que sobrou da seita jedi após o massacre de todos os cavaleiros (vide “Star Wars: Episódio 3 – A Vingança dos Sith/2005”). Nunca antes ficara tão claro o fato de se tratar de a Força se tratar de um organismo semi-religioso, organizado numa seita quase monocrática. Só que Malbus e Chirrut Îmwe (Donnie Yen) são clichês ambulantes. Os dois parecem classes de RPGs. Já Îmwe é o clichê monge-cego que parece ter superpoderes. É o velho Deus Ex-Força de “Star Wars”. Há ainda uma repetição de elementos clássicos (como o androide como alívio cômico), participações especiais dispensáveis e fan service (elementos supérfluos à história principal usados para agradar apenas fãs) repetitivo.

Donnie Yen como aquele supercego amigão da garotada

Donnie Yen como aquele supercego amigão da garotada

Para além de tudo, o longa se arrasta até chegar ao terceiro ato. O trabalho capenga nos atores faz com que as introduções sejam superficiais e os conflitos não convençam. Só que a parte final do filme se desenrola que as mais de duas horas de duração do longa pareçam até valer a pena. Mais focado na guerra em si do que nos tradicionais (e quase ausentes) duelos de sabre de luz, “Rogue One” passeia pelo front de batalha com qualidade nunca vista antes na franquia épica espacial. Há uma dinâmica em que todos os personagens parecem ter um papel a desempenhar. Ora fora de órbita, ora no chão, a batalha é bem medida e apesar dos lados terem forças desproporcionais, os confrontos tem resultados críveis. A fotografia é outro acerto – possivelmente a mais bela de toda a franquia.

A aparição de Darth Vader é outro acerto. É uma força inexorável e fascinante. Única no cinema. A recriação digital de Peter Cushing é ainda impressionante e faz jus ao tão esquecido e assustador Governador Tarkin. Em “Rogue One”, no entanto, o final cheio de acertos não apaga dois atos cheios de tropeços. “Rogue One” até agrada, mas talvez fique mais na memória de fãs do que de um espectador avulso.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 4/8.

Ficha técnica
Rogue One: Uma História Star Wars
(EUA, 2016), de Gareth Edwards. Com Felicity Jones e Diego Luna.

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